Nunca foi sorte, sempre foi Exu.

Stella*

“Tem um antigo ditado iorubá que diz: Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje.” É por meio dessa introdução que Emicida nos leva por 90 minutos a acompanhar a sua produção audiovisual “AmarElo: é tudo para ontem”. Não sei vocês, mas a cultura iorubá não foi algo que eu possa dizer que aprendi na escola…ou na faculdade. Olhando para o documentário produzido por Emicida e Fióti, percebi que não é só a cultura iorubá que não me é conhecida. Enquanto mulher branca acompanhar a narrativa histórica apresentada foi muito mais do que descobrir, foi reconhecer e apreender de fato o que é esse Brasil plural e diverso que tanto estudo.

Se em 2019 Emicida nos presenteou com o álbum homônimo cheio de profundidade e narrativa pessoal, no finzinho de 2020 ele nos devolve sonhos e esperanças que foram se perdendo ao longo da pandemia, e muito mais. Ele nos devolve a noção de comunidade.

O documentário, assim como o álbum, foi tão impactante que precisei de dias para pensar, absorver e compreender aquilo que Emicida quis trazer, aparentemente em toda sua trajetória e seu ativismo. Nada que está ali se mostra por acaso, sorte ou coincidência. Tudo tem roteiro, reflexão e sentimento. O roteiro de Toni C e a pesquisa de Felipe Campos nos mostra que assim como Emicida irá dizer lá pra frente, a gente só está aqui hoje, porque ontem outros estiveram construindo nossa trajetória.

Mesclando imagens e músicas do show no Municipal, com imagens do cotidiano e da trajetória de Emicida, além de programas televisivos e imagens do Arquivo Nacional (que aliás o Arquivo Nacional magistralmente fez uma thread/fio no Twitter convidando todos nós a conhecer sua vasta documentação) vamos ver diante de nossos olhos a história do samba, da cidade de São Paulo, da arte modernista, de Emicida e da diáspora negra no Brasil.

Prólogo

O documentário de Emicida e Fióti se inicia contextualizando e mostrando o que veremos ao longo dos próximos minutos. Para além de registrar o show do álbum AmarElo produzido em 2019, é para apresentar ao público como Emicida chegou ali e de que forma ele compreende sua música, sua cor, suas origens, sua relação com a arte e com a cidade de São Paulo.

Emicida retoma o ditado iorubá para nos dizer que ele tem a sensação de que ele voltou, mas não só isso, voltou para contar essa história. Uma história que não pode ignorar a escravidão e a formação da maior cidade do Brasil que só foi possível pela exploração da mão de obra escrava e negra. Lembrar que em um pouco mais de 500 anos de história (e aqui acho importante dizer, uma história sobretudo branca), o Brasil e a São Paulo articularam políticas de embranquecimento, aprisionamento, silenciamento, gentrificação e apagamento da cultura e do povo negro que foi fundamental para a construção do país e da metrópole.

Para ele, não há como contar sua história e a história de sua música sem compreender os lugares de vivência e de exclusão que passaram ao longo do tempo. Toda a história do rap e do negro no Brasil acaba por se fundir no samba, como música, aprendizado e expressão popular, num eterno ciclo de marginalização e centralidade das identidades. Como forma de justificativa da obra que ele nos introduz, Emicida reforça em sua fala (e em todo o documentário) o seu ativismo em prol da emancipação dos jovens marginalizados e na tentativa de reinseri-los na história do país, reescrevendo-a.

Sua argumentação se inicia na justificativa da realização do show no Teatro Municipal de São Paulo em novembro de 2019 para a apresentação do álbum AmarElo, em que a presença negra não pode estar vinculada somente à construção do edifício, manutenção ou técnica do Teatro, mas sim na ocupação e na apresentação de corpos marginalizados e artes marginalizadas para a recuperação desse espaço que é de quem fez a capital paulista o que ela é hoje. É preciso ‘devolver o direito de sonhar’.  

“Presentemente eu posso me/ Considerar um sujeito de sorte/ Porque apesar de muito moço/ Me sinto são, e salvo, e forte/ E tenho comigo pensado/ Deus é brasileiro e anda do meu lado/ E assim já não posso sofrer/ No ano passado” AmarElo

A música AmarElo será a primeira a ser trazida para nossa narrativa e para o início das imagens do show no Municipal. O resgate a arte de Belchior não será explicado agora, mas o som da voz de Belchior num Municipal lotado já causa arrepio e nos mostra tudo que está por vir. É para marcar um tempo e um espaço, o show, o álbum, o documentário.

A merendeira desce, o ônibus sai/ Dona Maria já se foi, só depois é que o sol nasce/ De madruga que as aranha desce no breu/ E amantes ofegantes vão pro mundo de Morfeu/ E o sol só vem depois/ O sol só vem depois/ É o astro rei, okay, mas vem depois/ O sol só vem depois” A ordem natural das coisas

A segunda música, talvez a que eu mais goste, é um retrato fiel embora poético da vida de milhares de trabalhadores no Brasil, e neste caso das periferias de São Paulo, que iniciam sua rotina antes mesmo do Sol nascer. Sonoramente Emicida explica que é um despertar, um não, são tantos despertares dos milhares de trabalhadores que fazem a capital funcionar antes mesmo do astro rei aparecer.

A partir da estrutura deste sonho apresentado por Emicida, as imagens do Municipal apresentam vitrais de catedrais no palco, trazendo toda uma mística e religiosidade que a música passa incorporando aspectos do jazz e do blues. A religiosidade será assunto marcado neste álbum em que orixás, Buda e Deus aparecerão.

“E tudo, tudo, tudo, tudo que nós tem é nós/ Tudo, tudo, tudo que nós tem é” Principia

A música etérea continua com a apresentação de Principia, na busca pelas religiosidades, afetos e pela miscelânea entre os batuques e atabaques com a narração do Pastor Henrique Vieira que fala sobre amor, sobre sentimento, mas sobretudo fala que o que importa são as relações e as trocas entre as pessoas, afinal a única coisa que se tem é um ao outro. A missão de Emicida não é só sonhar, mas devolver a alma de cada um. Palavras dele.

Ato I- Plantar

Se o prólogo termina enfatizando as relações humanas, o primeiro ato inicia com a importância e os ensinamentos que a terra nos dá. A horta de Emicida é o suporte para compreender que tudo tem seu tempo, seu cuidado e sua função na vida. É preciso respeitar e observar o tempo das coisas e como a vida se faz.

Se o tempo é fundamental para germinar, reconhecer as pessoas ao longo do tempo é imprescindível. Reconhecer aqueles que plantaram no passado para germinar no futuro, hoje presente, projetando e construindo cidades, ritmos, identidades e consciência.

“Love/ Libre, libre, libre/ Clap/ Libre, libre, libre/ Twerk/ Libre, libre, libre/ Nóis/ Libre, aqui somos libre” Libre

Com os batuques e múltiplos instrumentos que tocam, Emicida retoma a efervescência artística que representa não só o Municipal, mas a música brasileira. Ao retomar a Semana de Arte Moderna em 1922 e o modernismo na cultura da época, ele destaca a relevância da brasilidade chegar em território francês por meio dos Oito Batutas, com Pixinguinha e Donga, em que mostrar a Nossa Arte e Nossa Música foi fundamental.

Se as diferentes personalidades em diferentes campos das artes tornaram 1922 um marco na cultura nacional, os Oito Batutas criando e incorporando novos instrumentos em seu coletivo, mostrou que o “samba é o Brasil que deu certo”. E se o samba é símbolo de Brasil, não há como pensar em outros estilos originalmente brasileiro que não tenha vindo ou tenha influência do estilo. O rap e a Música Popular Brasileira são grandes herdeiros do estilo genuinamente brasileiro, e artistas como Maria Rita, Marcelo D2, Criolo são frutos e constante produtores desta miscelânea.

“Então eu vou bater de frente com tudo por ela/ Topar qualquer luta/ Pelas pequenas alegrias da vida adulta/ Eu vou/ Eu vou pro fronte como guerreiro/ Nem que seja pra enfrentar o planeta inteiro/ Correr a maratona, chegar primeiro/ E gritar “é por você, amor” Pequenas alegrias da vida adulta

A incorporação do samba-rock em Pequenas Alegrias da Vida Adulta é um exemplar de como é possível misturar estilos, mas sempre trazendo em suas entranhas o samba. Além disso o registro dos sonhos e sentimentos e o respeito ao tempo, fazem com que Emicida chame sua música de neosamba. E por que não? Os batuques estão lá, as rimas rápidas também, o cotidiano do trabalhador, as minorias, a cidade e o tempo.

“Do fundo do meu coração/ Do mais profundo canto em meu interior, ô/ Pro mundo em decomposição/ Escrevo como quem manda cartas de amor” Cananéia, Iguape e Ilha Comprida

Se até o momento Emicida falava de modo geral de música, negritude e do Brasil, agora de modo mais pessoal fala de si e da sua profunda admiração pelo Abominável Homem das Neves, o grande Wilson das Neves. Um dos maiores bateristas brasileiro de todos os tempos e que além de ídolo musical, Emicida pode se dizer amigo. Em um dos trechos mais emocionantes e talvez poéticos de todo documentário, Emicida dá a seguinte declaração “que bom poder entregar flores a quem se admira enquanto elas ainda podem cheirá-las” justamente em decorrência do falecimento de seu Wilson das Neves, além das frases da música que diz que eles ainda se encontrarão “em que altura você mora agora, um dia ali visitarei”.

“Quem tem um amigo tem tudo/ Se o poço devorar, ele busca no fundo/ É tão dez que junto todo stress é miúdo/ É um ponto pra escorar quando foi absurdo/ Quem tem um amigo tem tudo/ Se a bala come, mano, ele se põe de escudo/ Pronto pro que vier mesmo a qualquer segundo/ É um ombro pra chorar depois do fim do mundo” Quem tem um amigo tem tudo.

A partir dessa música, Emicida recupera o modernista Oswald de Andrade e seu manifesto antropofágico para dizer que percebe neste momento do álbum que é o outro que lhe interessa, que a vida faz sentido no encontro com o outro.

Ato II- Regar

O ato de regar a horta remete ao cuidado e na aposta de colher frutos, alimentando a terra com nutrientes. Para Emicida regar a história da música brasileira e da negritude no Brasil não existe sem peças fundamentais como Lélia Gonzalez, Leci Brandão e a formação do Movimento Negro Unificado que em plena ditadura, em 1978 subiu às escadas do Teatro Municipal de São Paulo “pedindo” o fim do extermínio negro. O MNU inclusive nos chama atenção para o fato de que se equidade e liberdade racial não se faz democracia.

“Com a garra, razão e frieza, mano/ Se a barra é pesada, a certeza é voltar/ Tipo Pantera Negra (eu voltei) / Tipo Pantera Negra” Pantera Negra

Regar também está vinculado à ideia de criar símbolos, e por meio deles e de sua força emancipar jovens tendo a certeza de que hoje estão ali porque muitos outros já vieram e “afofaram” o terreno. “Hoje eu estou aqui porque outros estiveram”. Também através de personalidades negras brasileiras Emicida reforça que os negros e o movimento negro constantemente precisaram se readaptar e criar modelos de organização e coletividade para combater os males sofridos, vivenciados e perpetuados pelo poder público e pela branquitude. Aqui a homenagem acontece em vida, pois esses símbolos e modelos de organização estão ali na plateia, os integrantes do MNU.

“Escapei da morte, agora sei pra onde eu vou/ Sei que não foi sorte, eu sempre quis ‘tá onde eu ‘tô (…) Só quem driblou a morte pela Norte saca/ Que nunca foi sorte, sempre foi Exu” Eminência Parda

Ato III- Colher

No início do ato III do documentário, Emicida reforça concepções que cada vez tem se mostrado mais evidentes no Brasil de 2020, o fato de que corpos pretos geram menos comoção e de que o erro é imperdoável para quem não é branco. O conceito de negritude abordado por pensadores franceses de origem africana reivindica a ideia de que é preciso tornar os negros em potência, e não somente por meio da tragédia.

Abdias do Nascimento, portanto, é peça fundamental para entender a arte negra, usando o teatro como forma de engrandecer seu povo e tendo Ruth de Souza como a grande Dama do Teatro Nacional.

“Se até pra sonhar tem entrave/ A felicidade do branco é plena/ A felicidade do preto é quase” Ismália

Na produção da música Ismália, Emicida afirma que tinha como sonho juntar os dois grandes pilares da dramaturgia nacional, Ruth de Souza e Fernanda Montenegro, porém a primeira não viveu até isso ser possível. Segundo ele, o poema Ismália é tão profundo que ao inseri-lo na música Ismália declamado pela ‘Nossa Senhora’ o objetivo era tornar a vida real tão bonita quanto o texto pode ser.

“Existe pele alva e pele alvo” Ismália

Isso é evidente com a criação da lei da vadiagem existente até hoje e a constante perseguição aos artistas do morro e artistas marginalizados que não correspondem ao desejo da branquitude. (O dj Rennan da Penha foi mais um dos exemplos) A lei funciona de maneira distinta para cores de pele diferentes, no passado e ainda hoje como seguimos vendo diariamente nos noticiários.

“Figurinha premiada, brilho no escuro/ Desde a quebrada, avulso/ De gorro alto do morro e os camarada tudo/ De peça no forro e os piores impulsos” AmarElo

A produção da música AmarElo partiu de um intuito em mostrar que não é possível olhar para o Brasil separando classe, gênero e raça, uma vez que estão intrinsecamente unidos, afinal a Dona Maria que acorda antes do sol nascer tem cor, classe e gênero, ou não? AmarElo é não desistir, é mostrar que o amor só existe no elo entre as pessoas e que a vida só faz sentido quando a gente se encontra e coletivamente se move, se não são só “alvos passeando por aí”.

Para além do álbum, a vida e produção de Emicida no Lab Fantasma tem sido um sonho coletivo e é só na coletividade que existe força.

Epílogo

Vem a pandemia. A primeira morte de coronavírus no Brasil foi uma empregada doméstica bem localizada em sua classe, gênero e raça. A pandemia só evidencia os abismos sociais cotidianos que aqui se encontram, mas tudo isso que acontece não é novidade, já aconteceu antes. Afinal a vida assim como a natureza é cíclica e “gira como uma disco de vinil”.

Se lá em 1922 os Oito Batutas representaram a esperança para o Brasil sobrevivente da Gripe Espanhola, o samba, ou a música é o que diminui o desespero e as ansiedades do indivíduo. Seja durante a Gripe Espanhola ou as incontáveis lives de artistas que nos embalaram no isolamento.

É por isso que para Emicida

“Viver é partir/ voltar e repartir” É tudo para ontem

Todas as chances de mudança estão no presente, no agora. Todas as chances de consertar os desencontros do passado moram no presente, é só no encontro que temos força e levamos a vida adiante, já diria Marielle Franco é no hoje que tá florescendo a mudança.

Encerro o documentário pensando o quanto ele fala com a gente. No momento em que mais precisamos nos isolar, Emicida reforça que é a coletividade e os encontros que fazem a mudança. É na pluralidade e diversidade que a gente se encontra, ou pode ser na luta como a Mangueira nos disse em 2018. Assim como a Escola nos contou a história que a História não conta, Emicida produziu a história que a História ofusca, silencia e apaga. E narrou em uma linguagem para todos nós compreendermos e com a qual podemos nos identificar, seja por sua experiência enquanto rapper e contador de histórias, ou seja pela tradição oral de culturas africanas em transmitir seus conhecimentos e ensinamentos/aprendizados.

Desde o dia 09 de dezembro que foi quando eu vi pela primeira vez o documentário me tornei a pessoa que manda no whatts: ei, já viu amarelo do emicida? putz vale muito a pena… tem que ver. Depois de ler tanta gente incrível falando de suas experiências individuais sobre o documentário, percebi que é unânime a obra prima produzida por esse ARTISTA. Em caixa alta imbuída de todo sentido que os modernistas tanto se debateram.

E o que fica? Para mim é que teria sido tão lindo o encontro do Emicida com os curitibanos no Teatro Guaíra lotado. Numa cidade em que o prefeito nega o racismo e marginaliza corpos. Um Teatro feito por corpos pretos ser novamente ocupado por eles, em que se reconhecessem no olhar, nas lutas e nos encontros. Em que AmarElo mostrasse o encontro e os elos que amar nos permite nesse mundo cão. No encontro e reconhecimento nos olhares, nos toques e nas trocas que a presença num Teatro tão referência nos traria. No choro presente e não isolado em nossas casas.

E se nunca foi sorte, sempre foi Exu, o que fica é que “tudo, tudo, tudo, tudo que nós tem é nós”.

* Sou historiadora e mestra em patrimônio cultural. Queria que a vida me deixasse ver todos os campeonatos de futebol, musicais e série espanholas possíveis (não necessariamente nessa ordem), mas enquanto isso não ocorre tento desbravar lugares de memórias e seus significados.

Ps: Agradeço muito você Deni pela amizade, pelo incentivo e por me convidar para iniciar e terminar esse ano tão estranho no seu blog!

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