Cidadão, sim

Marco Antonio Rocha*

Há pouco mais de três meses, vivemos a maior pandemia causada por um vírus aqui no Brasil. O contágio é extremamente alto e ainda não existe uma vacina nem um tratamento comprovadamente efetivo, mesmo que nosso desgovernante tenha convicção de que exista (é um governo da convicção). Diante deste cenário bastante otimista, a sensata Prefeitura do Rio de Janeiro decidiu que estava na hora de a população poder retornar às ruas, então publicou uma liminar de que os bares e restaurantes poderiam reabrir a partir do dia 02/07 (quinta-feira) desde que reduzissem a capacidade para 50% e exigissem de seus clientes as regras de distanciamento social. Acho que não é difícil imaginar que, desde o primeiro dia de reabertura, a situação logo saiu do controle.

Mais chocante do que assistir a este espetáculo do horror, do descaso de nossos governantes e dos homicídios em massa que têm cometido por negligência, é assistir a uma população ignorante cobrando o seu direito de frequentar bares nesta atual conjuntura. Em uma reportagem transmitida pelo Fantástico no último domingo (05/07) sobre a reabertura dos bares na capital do estado que já tem mais 10 mil mortos por corona vírus, uma cidadã (ops, cidadã, não) dá de dedo em um fiscal quando este lhe cobra o distanciamento. Em um acesso raivoso, comentando alguma fala anterior do fiscal que não foi transmitida, ela esbraveja:

“Cidadão, não! Engenheiro civil. Formado. Melhor do que você.”[1]

Se a gente escutasse uma sandice destas em qualquer outro contexto, não teríamos outro pensamento a não ser este, de que é uma insanidade alguém se autoproclamar não cidadão. Desde que me conheço por gente e que frequento a escola, aliás, foi lá que me ensinaram a importância de exercer a cidadania, acredito que sou um. Entretanto, quando nós linguistas ouvimos um enunciado inusitado como este, nos perguntamos o que o permitiu ser produzido. E então embarcamos numa jornada, às vezes penso, também inusitada.

Alguns linguistas buscam o significado da palavra em dicionários, ou seja, o significado Semântico da palavra para tentar explicar. Foi o meu primeiro passo. No Dicionário Online de Português, encontrei três acepções: i) “indivíduo que, por ser membro de um Estado, tem seus direitos civis e políticos garantidos, tendo de respeitar os deveres que lhe são conferidos”; ii) “Pessoa que habita uma cidade: ‘quantos cidadãos tem a sua cidade?’”; iii) “[Popular] Qualquer pessoa; sujeito, cara: ‘quem é esse cidadão?’”[2]. A partir destas definições, me perguntei o que o sujeito estaria negando ao afirmar que não era cidadão: será que ele não se considera um indivíduo de um Estado com direitos e deveres? Talvez; ou será que ele não se considera o habitante de uma cidade? ou, pior ainda, será que ele não se considera nem mesmo uma pessoa? Eu chutaria a última opção.

O que pode gerar risos no parágrafo anterior é um outro dispositivo, que podemos pensar ser um dispositivo da Pragmática. Um dos mecanismos do humor reside justamente nesse poder que as palavras têm de significar coisas diferentes em contextos diferentes. Muito provavelmente, quando aquela moça bradou “cidadão, não! engenheiro civil” ela não estava querendo dizer que não era uma habitante da cidade e muito menos que não era uma pessoa. Mas quando ouvimos e interpretamos o enunciado da maneira que ela o disse, estas duas acepções até que fazem sentido. Pelo menos pra mim, fazem.

A entonação dela poderia levar uma discussão no campo da Fonologia também, da prosódia. Aquela pausinha entre “engenheiro” e “civil” dariam pano para manga! Parece que ela está querendo ensinar alguma coisa… um tom de didática, talvez? Não sei, não compete a mim discorrer sobre isso por falta de domínio da área mesmo.

O que me compete um pouco melhor é pensar no nível discursivo deste enunciado, pois acho que já passei mais tempo da minha vida lendo e falando sobre Análise do Discurso do que lavando louça (pois é…). Quando pensamos em discurso, procuramos entender por que aquela palavra está naquele lugar, naquele enunciado em específico se ela parece não pertencer a ele. Se fosse um show de stand up, entenderíamos que era para gerar humor e aí a Pragmática daria conta de explicar os mecanismos de darmos risada disso, como escrevi dois parágrafos acima. Entretanto, não é um show de stand up (por mais que o Brasil atual pareça um palco sendo revezado todo dia por novos comediantes criando novos conteúdos inusitados para nós), aquela mulher está bastante séria num contexto bastante sério. Então, por que cargas d’água ela diz que o homem que está a seu lado (marido, namorado?) não é cidadão? A gente precisa olhar como esta palavra vem sendo utilizada na sociedade.

No artigo “O lado sub da cidadania a partir de uma leitura crítica da mídia”[3], os autores discorrem sobre como a mídia utiliza o termo “cidadania”, argumentando que não é sempre com o mesmo sentido que encontramos no dicionário. Eles analisam programas de rádio, programas de TV, pesquisam pelo termo em sites de busca, desenhos animados, entre outros, e chegam à seguinte conclusão:

“Fica absolutamente implícito nos discursos a referência à busca pela cidadania quando a palavra cidadão também tem um conceito pejorativo de sujeito menor socialmente falando. Cidadania aparece ligada ao povo, à pobreza, à precariedade. O policial aborda o intelectual e lhe trata por senhor, às vezes por doutor. Mas se aborda o pobre lhe trata por cidadão. Há uma retórica pejorativa de impacto coletivo do significado de cidadania e isso se reflete na sociedade que vai identificando em diversos movimentos a relação de cidadania e pobreza.”

Imagino que o fiscal que abordava os transeuntes em situação irregular durante uma pandemia, chamou o seu interlocutor de “cidadão”, ao que a mulher que estava ao seu lado reagiu com “cidadão, não! engenheiro – civil”. O uso de “cidadão” pelo fiscal parece ser apenas um vocativo, usado para tratar um desconhecido, mas para a mulher, chamar seu companheiro de cidadão foi colocá-lo num patamar de pobreza, precariedade, como se estivesse recebendo o mesmo tratamento que um morador da periferia recebe da polícia — e que absurdo isso seria, afinal, ele é “formado. melhor que você”.

O mais curioso é que, no mesmo artigo, os pesquisadores destacam que no âmbito da Internet, as pessoas raramente são chamadas de cidadãs; em vez disso, são invocadas as suas profissões.

 “Na internet as pessoas não são tratadas como cidadãs, mas sim, tratadas pelo trabalho que desenvolvem na sociedade, ou seja, na grande maioria das matérias jornalísticas existentes na mídia, as pessoas são destacadas como: médico, advogado, motorista, estudante, ciclista, vendedor. A função social é utilizada como significante de cada indivíduo e, subliminarmente há um reforço do trabalho com a cidadania. Estar empregado é ser cidadão. A palavra cidadania é tida como sinônimo de coletivo e de povo. Para se designar aquele que merece destaque na sociedade são usados os termos indivíduo (um) ou sujeito (um).”

Curioso porque afirmam que “estar empregado é ser cidadão”. Nesta lógica, “cidadão” e “engenheiro civil” seriam equivalentes. Mas não são aos ouvidos do sujeito reacionário. Por isso, a mulher corrige o fiscal: ela precisa marcar sua posição na sociedade.

Logo, para um sujeito inscrito nesta Formação Discursiva (FD)[4], ser cidadão é ser menos importante na sociedade. Entretanto, quando nós que estamos inscritos em outra FD (espero que vocês leitores também) ouvimos isto, achamos incoerente. E achamos graça. E produzimos memes. Nós não ouvimos “não sou ralé, sou chique, bem”. Ouvimos “não participo desse grupinho esquerdopata que chamam de sociedade, nem gente eu sou”.

Procurei também a etimologia da palavra e encontrei que o termo tem origem na palavra latina civitas, que significa “conjunto de direitos atribuídos ao cidadão” ou simplesmente “cidade”[5]. Vemos que estes sentidos se mantêm nos dicionários que consultamos, pois cidadão é aquele que possui direitos (e deveres) na cidade em que habita, mas também pode ser somente a forma de designar um habitante da cidade. Entretanto, o dicionário etimológico nos presenteia com informação a seguir:

“Vale destacar que o conceito de “cidadania” praticada na Roma Antiga era bastante diferente da definição atual deste termo. Atualmente, qualquer ser humano pode ser considerado cidadão do país em que nasceu, porém, para os antigos romanos, apenas grandes proprietários de terra, e indivíduos que não se encontravam em situação de submissão a terceiros podiam ser considerados cidadãos e praticar a cidadania.”

Ora, parece que o jogo virou, não é mesmo? E o sentido da palavra “cidadão”, além de se afastar de sua origem mais remota, se tornou exatamente o oposto daquilo que designava. Na Roma Antiga, os cidadãos eram os detentores de riquezas e poder; no Brasil de hoje (e de algum tempo já), são os desprovidos destes bens. Pelo menos, em algo elas estão de acordo: não são todos os habitantes de uma cidade cidadãos, como poderia supor nossa democracia, pois as sociedades são e sempre foram divididas em classes. No fim, o significado que temos de “cidadão” e “cidadania” parecem ser somente virtuais, pois nunca abrangem a totalidade da população. Será que é possível existir um termo que coloque a todos no mesmo patamar social? Parece que não, pois a(s) sociedade(s) são sempre naturalmente divididas. O titio Marx chamou isso de “luta de classes”.

E temos visto cada vez mais disso, desses enunciados absurdos que circulam por aí e se transformam em memes, porque só o que conseguimos fazer é rir diante de cenário tão catastrófico. Estamos acuados. E estamos assim porque essa gente tem um representante no poder que autoriza os seus discursos. Leonardo Sakamoto bem escreveu:

“Bolsonaro chegou lá não apenas por que surfou na crise política e econômica, pelo discurso antissistema, pela conjuntura de fatores que incluiu o atentado que sofreu. Ele também representa e protege a parte mais rica que acredita que o Estado existe para servi-lo. E cada vez que reforça que há brasileiros mais iguais que os outros, seus seguidores sorriem e reafirmam seus preconceitos.”[6]

O legal do discurso também é que, quando nos tornamos conscientes da maneira como ele é produzido (ou seja, tomamos consciência de que é um processo inconsciente), podemos escolher as palavras que usamos com mais cuidado, pelo menos em determinados contextos mais controlados, como este texto. Podemos subverter. É desta maneira, a partir de uma tomada de posição em oposição à este discurso fascistoide, que me declaro cidadão, sim! Porque não faço parte dessa classe que quer ter mais direitos e menos deveres, que pensa que pode ditar as regras sem dispor do sentido da participação. Esta classe a qual Marilena Chauí chama odiosamente de classe média e lhe confere três adjetivos uma abominação política (porque ela é fascista), uma abominação ética (porque ela é violenta) e uma abominação cognitiva (porque ela é ignorante)[7]. Não podemos esperar da classe média uma coisa que ela nunca será. A classe média nunca será cidadã.


[1] https://www.youtube.com/watch?v=_SBxgOz70-w

[2] https://www.dicio.com.br/cidadao/#:~:text=Significado%20de%20Cidad%C3%A3o,deveres%20que%20lhe%20s%C3%A3o%20conferidos.

[3] TUZZO, Simone Antoniaci; Dr. Marcelo dos Santos Cordeiro. O lado sub da cidadania a partir de uma leitura crítica da mídia. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 22, n. 4972, 10 fev. 2017. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/55607. Acesso em: 6 jul. 2020.

[4] Formações Discursivas, no campo da Análise do Discurso, diz respeito à maneira como os discursos se organizam. Os sujeitos, quando enunciam, não escolhem palavras de uma rede infinita de possibilidades como a gente pode supor. As palavras e expressões escolhidas por ele estão ligadas à ideologia deste sujeito, portanto, quando ele diz, podemos traçar similaridades com o que outros sujeitos já disseram e têm dito e estabelecer que eles pertencem à uma mesma FD. Isso quer dizer que analisar um discurso é encontrar essas redes de semelhança entre o que os sujeitos enunciam. Por exemplo, a direita reacionária chama de “impeachment” o que na verdade foi “golpe”. Neste enunciado, você pode ler algumas coisas se você ler o discurso: 1) “impeachment” é um termo utilizado pelos sujeitos inscritos numa FD a qual chamei de direita reacionária; 2) “golpe” é um termo utilizado por uma FD de oposição à anterior a qual não nomeei, mas poderia chamá-la de “esquerda”; e 3) eu estou inscrito na segunda FD.

[5] https://www.dicionarioetimologico.com.br/cidadania/

[6] https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/07/06/cidadao-nao-engenheiro-a-era-bolsonaro-tornou-o-esgoto-orgulhoso-de-si.htm

[7] https://youtu.be/fdDCBC4DwDg?t=1165

*Marco é tão apaixonado pela capacidade humana de se comunicar por meio da língua que cursou Letras duas vezes e fez Mestrado em Linguística. Atualmente, porém, não tem a menor ideia do que fazer disso a não ser se sentar no boteco para falar mal do que o presidente fala. Mentira: ele também dá aulas e escreve esporadicamente. 

2 comentários em “Cidadão, sim

  1. Muito bom, Marco. orgulho de você!

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  2. Mesa de bar tem essas coisas, né?, vez ou outra chega um ser aleatório que não sabe nada do que tá sendo conversado e vem dar pitaco. Aqui estoy, honrando os bêbados inconvenientes nas mesas virtuais, hehe. Fico com a impressão de que quando a pessoa lá diz “cidadão, não: engenheiro civil”, ela não está realmente negando a cidadania do seu digníssimo. Parece que o “não” não exerce essa função de negação (pode isso? sei nada), tipo quando a gente diz: “essa porçãozinha aqui até que tá boa”, e recebe como resposta “boa, não: tá um espetáculo!”. O “não” não tá querendo dizer que a porção não tá boa, mas que “boa” não é o suficiente. Aí faria todo sentido com isso que você diz:

    “O uso de ‘cidadão’ pelo fiscal parece ser apenas um vocativo, usado para tratar um desconhecido, mas para a mulher, chamar seu companheiro de cidadão foi colocá-lo num patamar de pobreza, precariedade, como se estivesse recebendo o mesmo tratamento que um morador da periferia recebe da polícia — e que absurdo isso seria, afinal, ele é ‘formado. melhor que você’.”

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