As línguas morrem (e o que nós temos a ver com isso?)

Everton Bernardes*

Se o título traz uma constatação quase óbvia, talvez tenhamos internalizado isso tão bem que não parece ser necessário refletir sobre. Se as línguas mudam independentemente de qualquer nostalgia purista, obviamente se tornarão novas línguas uma hora ou outra. Falamos um “latim estropiado”, como diria um dos meus professores. Além disso, podemos facilmente revisitar a consolidação da língua que falamos desde tempos remotos: temos as cantigas medievais, documentos históricos, textos religiosos e científicos em latim… É sempre assim, não é?

Inscrição Duenos (ca. 550 AEC), por Heinrich Dressel (1845-1920), que a descobriu em 1880

Tomando como baliza temporal a inscrição Duenos (ca. 550 AEC), temos mais de dois milênios e meio de documentação da nossa família linguística – a das línguas românicas. Podemos até ressaltar a existência de vários buracos no meio do caminho, mas quando comparamos com a documentação de outras línguas indo-europeias antigas, notamos um abismo. A língua germânica mais antiga que conhecemos razoavelmente bem é o gótico, sendo os documentos quase sempre do século VI. Quando falamos das línguas eslavas, a mais antiga documentada é o antigo eslavo eclesiástico, a partir do século IX. Reconstruir as protolínguas desconhecidas (línguas que derivaram outras, como o latim para o português, o espanhol, o italiano, etc.) foi uma das principais preocupações dos linguistas por volta do século XIX. Assim, nasceria o diagrama em árvore, até hoje xodó dos amantes de línguas.

Ilustração de Minna Sundberg (1990-) para a sua webcomic, Stand Still, Stay Silent.[1]

Só que se para as línguas indo-europeias isso funciona muito bem obrigado por conta dos registros escritos de várias delas desde antes de a calça virar moda, para línguas de tradição oral o modelo de árvore é quase inaplicável – ou, para dizer o mínimo, insuficiente. Quando os europeus acharam divertido viajar para a América para documentar as línguas dos povos indígenas, perceberam que não tinham como aplicar os métodos trazidos nos navios. Eram tantas línguas com semelhanças e diferenças gritantes que ficava difícil até dizer “isso é uma família linguística, mesmo” – o tronco macro-jê é até hoje repleto de controvérsias acerca da inclusão ou não de algumas línguas.

Mas se a relação entre documentação e morte de línguas parece muito simplória – então é só registrar pra gente saber como eram, suas classificações, onde eram usadas? qual o intuito disso, afinal de contas? –, vamos falar um pouco mais sobre algumas mortes de línguas. E eurocêntricos como somos, talvez seja mais atrativo começarmos pela (quase) morte de uma língua europeia.

A Irlanda fala inglês, mas nem sempre foi assim. Na verdade, isso é um fenômeno muito recente. Há outro idioma falado na Irlanda e na Irlanda do Norte chamado – pasmem – irlandês. Além de ser o primeiro idioma oficial da República da Irlanda, seu ensino é obrigatório nas escolas. Muitos documentos do governo devem ser publicados tanto em inglês quanto irlandês. Há escolas cujo ensino é oferecido completamente em irlandês (chamadas Gaelscoileanna). Vamos ver, então, um mapa linguístico de um censo de 2011[2]. Nele, podemos ver a porcentagem de pessoas que afirmaram conseguir falar irlandês na Ilha da Irlanda.

Nota-se uma disparidade gigantesca entre as duas Irlandas: enquanto a maior parte da Irlanda do Norte, onde o ensino da língua não é obrigatório, está abaixo dos 10%, na Irlanda vemos uma quantidade razoável de regiões acima dos 70%. Parece até mesmo um cenário bem otimista. Vamos, então, a outro mapa do mesmo censo. Nele, a porcentagem de pessoas que afirmaram usar a língua irlandesa diariamente fora do sistema educacional na República da Irlanda.

A realidade vai mais nessa linha, mesmo. Independentemente do ensino obrigatório, de ser a primeira língua oficial do Estado, etc., o irlandês contava em 2016[3] com pouco mais de 70 mil falantes que usavam a língua diariamente. Isso é menos que o número de alunos da Universidade de São Paulo no mesmo ano. As regiões mais escuras no mapa, onde o irlandês é parte do cotidiano, são chamadas de Gaeltacht. Como se pode observar, são regiões situadas nos extremos da ilha, em zonas rurais. Juntas, elas representam pouco mais de 2% da população da Irlanda.

Vamos falar brevemente sobre o declínio assombroso da língua irlandesa. Após a Guerra dos Nove Anos, na qual a maioria das mortes irlandesas foram ocasionadas pela fome, a Inglaterra passa a controlar politicamente a Ilha da Irlanda. Com o tempo, uma série de ações colonizadoras e imperialistas causaram conflitos internos. Grande parte delas era voltada para a tentativa de conversão da Irlanda católica ao protestantismo, um ato mais político que religioso. Entre elas, a implementação de plantations, retirando terras dos irlandeses e entregando a colonos ingleses (anglicanos) e escoceses (presbiterianos), as repressões violentas às revoltas gaélicas e as respostas cruéis da coroa britânica a essas revoltas. Para se ter ideia da magnitude das imposições britânicas, os ingleses implementaram um sistema semelhante ao de escravidão para os irlandeses. Vários foram presos, transformados em servos e enviados às colônias como fizeram com os escravos africanos. Concomitantemente, foram realizadas políticas de desumanização dos irlandeses, tornando-os um povo estigmatizado na própria ilha da Irlanda. Em 1691, as Penal Laws tiraram uma série de direitos dos católicos da Irlanda, bem como de protestantes não anglicanos (como os presbiterianos escoceses). As terras pertenciam a uma porção ínfima de senhores de terras, muitos dos quais viviam na Inglaterra. Assim, o melhor e quase tudo do que era produzido era exportado. O século seguinte foi marcado por um período de grande fome (1740-1741). As estimativas de morte vão até 20% da então população da ilha (o que seria algo como 480 mil mortos), sendo a maior parte composta pelas classes mais baixas. Isso porque as plantações de batata, principal fonte de alimento dessas camadas, ficaram congeladas (esses anos foram um dos auges da Pequena Era Glacial). No século XIX, com mais políticas exploratórias como as Corn Laws, os irlandeses continuavam oprimidos pela coroa britânica e dependentes da batata. Entre 1845 e 1849, devido a uma doença que afetou as plantações de batatas (não só na Irlanda, mas especialmente nela por conta dessa dependência), instaurou-se outra grande fome, dessa vez ainda mais forte. Pelo menos 1 milhão de pessoas morreram ou de fome, ou de doenças. Mais 1 milhão foi forçado a fugir do país, principalmente para os Estados Unidos. Durante esse período, como os camponeses não tinham terras e precisavam trabalhar para os proprietários, que viviam na Inglaterra, em troca de moradia, muitos ficaram em situação de rua. Também no século XIX, com a criação de um sistema educacional feito pelas National Schools, a coroa britânica proibiu o ensino de irlandês, impondo a língua inglesa. A proibição acabou em 1871, mas o desencorajamento persistiu por mais algumas décadas. A essa altura, boa parte da população da Irlanda não falava irlandês, já que a maioria dos falantes havia imigrado ou morrido. Um século antes, quase todos falavam a língua.

Ilustração discriminatória do século XIX, do jornal Punch, contra irlandeses. Para os que (felizmente) não podem ler inglês, o texto de cima é um texto nacionalista irlandês fictício contra o Império Britânico, enquanto o de baixo diz que o autor é o retratado na imagem, chamado “Sr. G-O’Rilla”, do Partido Jovem Irlanda, “exultante com o insulto à bandeira britânica”. A última frase diz “Ele não deveria ser extinto de uma vez?”.

Com esse panorama bem superficial, voltando ao mapa, podemos perceber coisas interessantes. As atuais Gaeltachtaí são reflexo dessas políticas imperialistas: “coincidentemente” são regiões com terras pouco férteis e onde a presença inglesa não foi intensa. Ulster, região composta pela Irlanda do Norte e pelo norte da Irlanda, se tornou protestante e consequentemente teve adesão maior à língua inglesa. As diferenças entre essa região e o resto da ilha também geraram vários conflitos políticos que resultaram na separação da Irlanda – hoje, a Irlanda do Norte é parte do Reino Unido; a República da Irlanda, não. A presença da língua irlandesa na República da Irlanda, portanto, não é um mero resquício da história, bem como seu ensino obrigatório não é uma insistência nostálgica e inocente do governo por um patriotismo ingênuo.

O irlandês quase morreu. Diferentemente do latim, ele não deu origem a outra língua. Foi uma língua que quase se foi junto dos seus falantes por práticas de genocídio e de imperialismo. Seu caso é só um de incontáveis outros. Na Europa ocidental, podemos dizer que é um caso muito peculiar: poucas outras línguas tiveram uma história tão intensa, ainda que algumas tenham sido proibidas, isoladas ou substituídas à força. Contudo, em todas as outras partes do mundo, isso foi e é a regra. No Uruguai, há uma identificação muito forte com os charruas. Esses povos, contudo, foram sistematicamente dizimados ao longo do mesmíssimo século XIX pelos colonos, sendo o Massacre de Salsipuedes somente o episódio final desse genocídio. O resultado linguístico é igualmente triste: conhecemos algumas palavras. Somente palavras. Ao longo de toda a América, há uma série de línguas que correm risco de desaparecimento. Muitas delas foram pouquíssimo ou nada documentadas. Uma das principais razões para o desaparecimento de línguas indígenas é a adesão cada vez mais forte às línguas europeias por questões de poder e geração. Contudo, deixá-las morrerem é, às vezes, deixar morrer também parte do conhecimento e das tradições desses povos. O que nós, linguistas americanos, temos a ver com isso?

[1] http://sssscomic.com

[2] https://www.cso.ie/en/census/census2011reports/census2011profile9whatweknow-educationskillsandtheirishlanguage/

[3] https://www.cso.ie/en/releasesandpublications/ep/p-cp10esil/p10esil/

*Everton Bernardes é mestrando em estudos linguísticos pela UFPR. Ele detesta se identificar assim. Ama línguas esquisitas e gatinhos.

Um comentário em “As línguas morrem (e o que nós temos a ver com isso?)

  1. Que interessante. Parabens meu anjo. Fernanda falou esta semana que o ingles sera uma lingua principal nas escolas e como ficam os alunos como vc e muitos que optaram por outra? Mas sucesso sempre. Bjus de luz

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