Fica Manu, fica Mandetta (obrigada Mickey!)

Marco Antonio Rocha*

Tempos de isolamento social são estranhos e ficamos impedidos de ir ao boteco — ah! acho que é o que eu mais gostaria de fazer nesse momento, o quinto copo de cerveja bem gelada virando rápido pela goela enquanto falamos mal do governo. Pelo menos, ainda podemos falar mal do governo digitalmente e tomar uma cervejinha embaixo das cobertas. Convenhamos, não é a mesma coisa, mas é o jeitinho que a gente encontra de manter nossa sanidade mental.

Tempos de isolamento social são estranhos: tenho acompanhado a temporada toda desse BBB. Tá que não comecei lá do comecinho, enquanto a covid-19 era só um problema internacional, mas aos poucos fui me afeiçoando àqueles personagens tão pessoas e comprando junto as suas brigas. E olha, que nesse BBB teve briga. E uma briga muito justa: as mulheres souberam de conversas entre os homens que tinham o objetivo de prejudicá-las atacando a imagem delas como mulheres. No fim, virou algo como uma união feminista contra os machos escrotos do programa — e como todo mundo já sabe, elas venceram junto com parte da população brasileira que acompanha o programa e votou para eliminar aqueles homens. Saiu um por um. Dos 20 candidatos, o Top 10 foi composto por 9 mulheres, mais o Babu, um cara sensato.

O mais legal foi perceber como tudo se deu. Quando chegou a vez do último macho escroto ser eliminado, o arquiteto Prior, ele já estava sendo cotado como queridinho do público por ser um “cara de verdade” e sendo defendido por todos aqueles outros machos escrotos que já haviam saído do programa. Uma pena, ele escolheu enfrentar Manu Gavassi, a fada sensata do programa que ganhou uma legião de fãs pelo país (tá, inclusive eu), mas, segundo alguns, uma patricinha “que não é de verdade”. A disputa ultrapassou os 1,5 bilhão de votos, resultando a eliminação de Prior. O que isso quer dizer? Que MUITA gente participou da votação, MUITA gente se mobilizou nas redes sociais a favor de seu candidato — e de suas causas. De um lado, a fada sensata, feminista e patricinha. Do outro, o macho alfa, gente de verdade que odeia mimimi. Tá, mas o que isso tem a ver com linguística?

Ruth Amossy, professora da Universidade de Tel Aviv, publicou recentemente (2014) um livro chamado “Apologia da Polêmica”, no qual ela discute como a polêmica funciona discursivamente — além, é claro, de fazer uma defesa da importância de haver polêmicas nas sociedades, pois é a partir delas que as sociedades se tornam plurais e democráticas. Segundo ela, a polêmica se trata de “um debate em torno de uma questão da atualidade de interesse público, que comporta os anseios das sociedades mais ou menos importantes numa dada cultura”. Interesse público, Manu vs. Prior? Sim, pois a disputa foi tão forte que deixou de ser apenas sobre dois personagens de um reality show, mas de dois ideais. Manu vs. Prior passou a representar dois polos distintos muito presentes na sociedade brasileira hoje o qual chamamos de Esquerda vs. Extrema Direita. Manu representava alguns valores defendidos pela esquerda: luta feminista, direitos LGBT, ao passo que Prior representava alguns valores defendidos pela extrema direita: contra os mimimi, sofreu preconceito por ser homem (o acusavam de machista injustamente). Logo, as redes sociais ganharam diversas vozes, a mais icônica certamente é de Bruna Marquezine, amiga íntima de Manu Gavassi, contra Neymar Jr. (e outros tantos jogadores de futebol) a favor de Prior. É engraçado porque todo brasileiro sabe do relacionamento que os dois, Bruna e Neymar, tiveram no passado e como seu término repercutiu nas redes sociais; assim, mais dois opostos que já eram adversários, se tornaram adversários mais uma vez nesta causa. E memes como este foram produzidos:

(Essa imagem é tão legal porque traz tantos níveis discursivos de análise que, nossa, eu poderia ficar um texto inteiro só nela! Mas percebam como nela está presente tudo que eu já vinha falando nos parágrafos anteriores. Só mais um detalhe: percebam que o nível da disputa foi tão épico que utilizou como referência o conflito dos Vingadores em “Guerra Civil”, um confronto épico entre dois lados.)

Entretanto, o que gera uma polêmica? O embate desses, que durou somente 2 dias, pode ser uma polêmica? Sim, pois “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem” (quem nunca leu essa frase por aí, pela Internet, sendo atribuída à Fernando Pessoa, né?). Brincadeiras à parte, essa frase tem um fundinho de verdade. A disputa foi intensa e mobilizou muitas pessoas, por isso uma polêmica. Olha só, a professora Amossy atribui três características para polêmica: (i) ela comporta uma oposição de discurso, ou seja, um embate de teses antagônicas (tem mais antagonismo que isso?); (ii) ela apresenta uma oposição de papéis, isto é, a polarização do discurso que estabelece um “nós” contra “eles” (#ficaManu #foraPrior); e (iii) trata-se de um espetáculo oferecido aos espectadores, isto é, àqueles que estão fora da interação polêmica, que ainda não tomaram partido por nenhum dos lados.

Acho que a sacada mais genial desses caras que estudam sobre polêmica (Amossy não é a única, assim como nada que fazemos em ciência fazemos sozinhos — mas é minha favorita) é essa terceira característica. Ela quer dizer que quando você faz uma publicação em suas redes sociais a favor do seu lado, você não tem objetivo nenhum de convencer quem defende o lado oposto. Isso é impossível, pois as pessoas já estão convencidas de seu posicionamento quando o defendem publicamente. E por isso também acontece aquelas discussões intermináveis nos comentários do Facebook que só terminam quando os usuários decidem se bloquear mutuamente. Não há resolução de polêmicas em ambientes virtuais que não seja o cancelamento. Então, para que serve a polêmica, se não é pra convencer o outro lado? Não é pra isso que a gente discute, se confronta, debate ideias? Sim, pequeno gafanhoto, mas não no meio das polêmicas.

Segundo Amossy, há dois propósitos. O primeiro é tentar convencer um auditório que está de fora da polêmica, aquelas pessoas que ainda não tomaram partido por, provavelmente, não estarem inseridas em nenhuma das coisas (tipo aquelas pessoas que não assistem BBB porque é falta de cultura, sabe? Sim, cuspi pra cima muitas vezes, obrigado, de nada). O segundo objetivo, o que eu acho mais interessante, é de reforçar um posicionamento num embate. Se se deixa de publicar, de falar, de comentar, sua voz vai perdendo espaço na discussão. Se o seu lado da polêmica não for alimentado, o outro lado vai ganhar espaço. E vai sobressair. E vai convencer os indecisos. Logo, o maior propósito do embate polêmico não é a vitória ao eliminar o seu inimigo, é a manutenção do espaço já conquistado e, talvez, a conquista de novos espaços ainda não explorados.

E não duvidem do poder das polêmicas! Manu vs. Prior representa tanto a nossa divisão Esquerda vs. Extrema Direita que até o senhor Zero-Três escreveu um tweet.

(observe que o Eduardo já jogou em algumas palavras o que nós, analistas do discurso, tentaríamos fazer procurando vários textos para comprovar. Ele estabeleceu os dois lados: Esquerda [militante de] vs. Extrema Direita [POLITICAMENTE INCORRETO QUE ODEIA MIMIMI]. Sem mais.)

Outra polêmica que tem circulado por aí — bem mais fútil que o BBB, mas também decorrida do fato de estarmos vivenciado uma pandemia — é o confronto Saúde vs. Economia. E assim como Manu vs. Prior consegue atingir um nível maior de polêmica e se transformar em Esquerda vs. Extrema Direita, pasmem: Saúde vs. Economia também consegue. Desde que o presidente começou a tomar as suas indecisões com a chegada dos primeiros casos de Covid-19 ao Brasil, temos visto um embate direto entre aqueles que são a favor do isolamento horizontal, ou seja, os que defendem que a maioria das pessoas deve se isolar e sair apenas em casos em que haja extrema necessidade (como ir ao supermercado e à farmácia), e aqueles a favor do isolamento vertical: só ficam em casa idosos e pessoas em grupos de risco (que já possuam alguma doença pré-existente), o resto continua fazendo o que sempre fez, vida que segue. Em pouco tempo, os que defendem o isolamento horizontal começaram a produzir discursos colocando-os ao lado de quem defende a vida de todos, a Saúde (para todos), pois escutam os órgãos internacionais, tipo a OMS, que tem recomendado o isolamento horizontal como melhor forma de combate à pandemia, pois achata a curva de contaminação e não sobrecarrega o sistema de Saúde dos países. Do outro lado do embate, os que defendem o isolamento vertical começaram a produzir discursos a favor da Economia, pois se o Brasil parar suas atividades, todo mundo quebra, fica sem emprego e tá todo mundo f*dido do mesmo jeito, mostrando que achatar a curva seria ineficiente de qualquer maneira.

O já ex-ministro da Saúde Mandetta (será que haverá pronunciamentos futuros desse ex também, hein Deni, o que acha?) era do grupo da Saúde (ironias da vida, pois ele também é da Extrema Direita) pois defendeu o isolamento horizontal até os seus últimos dias — não, ele não morreu, só foi demitido mesmo. O nosso presidente, adivinhem, está no grupo da Economia pois vem defendendo o isolamento vertical (isso depois de defender por muito tempo o não isolamento). Acho que todos sabemos que o presidente não toma tantas decisões assim, elas são muitas vezes pressionadas por grandes empresários e grupos políticos que têm o interesse de se manter ricos e no poder — com os quais, também sabemos, o rabo do sr. Bolsonaro está preso desde o início de sua campanha eleitoral. Entretanto, por mais que defenda o oposto, o discurso do presidente não pode soar contra uma questão da Saúde (mesmo que esta esteja ligada a valores da esquerda). Qual a saída? Conciliar os dois. Será possível? Vamos ver se é, ao dar uma olhada em seu último discurso (16/04), quando anunciou a demissão de Luiz Henrique Mandetta e a nomeação de Nelso Teich para o cargo de Ministro da Saúde.

“Foi realmente um divórcio consensual. Porque acima de mim, como presidente, e dele como ainda ministro, está a saúde do povo brasileiro. A vida para todos nós está em primeiro lugar. A questão do coronavírus se abate sobre todo o mundo e cada país tem as suas especificidades como bem disse o chefe da OMS. No Brasil não é diferente.”

1º: acima de tudo está a saúde do povo brasileiro.
Sem contar a breguice de o presidente ficar fazendo casamentos e divórcios por aí a torto e a direito, como um bom homem conservador, cristão e de família faz, ele coloca aqui a saúde em primeiro lugar. É somente a saúde e a vida que importam.

“Quando se fala em saúde se fala em vida e a gente não pode deixar de falar em emprego porque uma pessoa desempregada estará mais propensa a sofrer problemas de saúde do que uma outra empregada.”

2º: saúde –> vida <– emprego (saúde leva à vida, emprego leva à vida)
Notem, que o discurso é construído de forma a partir da vida e chegar ao emprego; primeiro defendeu a vida, então defendeu que emprego também é importante.

“E desde o começo da pandemia eu me dirigi a todos os ministros e falei da vida e do emprego. É como um paciente que tem duas doenças. A gente não pode abandonar uma e tratar exclusivamente outra. Porque no final da linha esse paciente pode perder a vida.”

3º: vida E emprego (cadê a saúde?)
Aqui, há um articulador de adição. Como poucos recursos da língua, o nosso “e” estabelece que dois argumentos estão no mesmo nível. É o verdadeiro significado do “tanto faz”. Gosto de hambúrguer E de pizza. Jogo futebol E danço balé. Beijo meninos E meninas. Falei da vida E do emprego. Mas percebam a ordem: “vida e emprego”, isso talvez vá ser importante depois. E percebam que agora é “vida”, não mais “saúde”. Continuemos:

“Sabemos das interpretações que fazem a respeito daquilo que se fala. A interpretação depende da linha editorial ou daquele repórter. Sempre falamos em vida e emprego. Nunca emprego e economia de forma isolada. Nunca.

4º: reforço do argumento: nunca NUNCA NUN-CA NUNQUINHA N-U-N-C-A
É, nunca.

Mas aí vem a grande sacada, o que esperei há tanto tempo para mostrar para os leitores do boteco. O tal do “mas”! (sinto-me ovacionado neste momento). Assim como o “e”, o “mas” também é um articulador da língua e significa justamente o oposto daquele que acabei de falar: estabelece uma oposição. Mas não é uma oposição do tipo “eu gosto de hamburger, não gosto de pizza”, “eu jogo futebol, não danço balé”, “eu beijo meninos, não beijo meninas”, “falei do emprego, não falei da vida”. NÃO! Nossa vida seria muito fácil se tudo fosse assim, tão acertado, tão óbvio, tão claro.

Um linguista incrível, do qual também sou fã, desenvolveu (e ainda desenvolve, porque na ciência quase nada está terminado — espero que a vacina contra o Corona esteja em breve, pelo menos) uma teoria que chamou de Teoria (dã) da Argumentação na Língua. NA língua, viram? O que ele quer dizer com ela? Que nas línguas naturais, e português é uma delas, temos recursos que funcionam como mecanismos para construirmos argumentações. Ele queria mostrar que a argumentação não está fora da língua, com recursos externos a ela, mas dentro dela também, nas suas propriedades linguísticas. Seu nome, tava esquecendo, Oswald Ducrot. Para provar sua teoria, ele desenvolveu vários trabalhos justamente sobre esses articuladores da língua e o “mas” é um deles.

E o que Ducrot diz sobre o “mas”? Basicamente — e olha, bem basicamente, porque foi uma dor de cabeça escrever uma dissertação explicando como que isso funciona — ele serve para opor um enunciado a outro e mostrar a qual desses enunciados o enunciador (aquela pessoa que fala, podemos dizer assim) está defendendo. O exemplo dele, do qual eu gosto muito (já já voltamos pro discurso do nosso queridíssimo):

“Essa casa é bonita, mas é cara.”

Imaginemos: se existe algum momento da vida em que uma pessoa possa dizer esta frase, provavelmente será quando estiver procurando uma casa para comprar. Logo, ela precisa decidir se vai comprá-la ou não. Assim que o corretor do imóvel escuta o primeiro enunciado “essa casa é bonita”, ele abre um sorrisão: o cara vai comprar a casa, pois ser bonita é um argumenta favorável. Mas quando escuta na sequência “mas é cara”, seu sorriso se esvai, pois este é um argumento para não a comprar. Poxa vida, então por que será que o possível comprador deu um resquício de esperança para o corretor? Ora, quanto mais forte fosse o argumento do primeiro enunciado, ou seja, quanto mais bonita for a casa, mais forte será o argumento do segundo enunciado, mais cara ela será. Assim, ela ser bonita reforça a qualidade de ela ser cara, o que reforça muito mais o argumento para não a comprar. Se só dissesse “essa casa é cara”, certamente o corretor ia ficar enchendo o saco para renegociar o valor.

Essa aí é — repito, basicamente — a explicação de Ducrot. Mas se pensarmos no nível discursivo, acredito que tem mais coisa acontecendo aí. É preciso dizer para o corretor que a casa é bonita, pois o corretor também pensa dessa forma (afinal, ele que está mostrando a casa) para que tenhamos um acordo: estamos falando da mesma coisa, concordo com você, olha como eu pareço um bom comprador. Entretanto, ele não quer comprar aquela casa, então, depois de se mostrar complacente com o corretor, ele precisa enunciar a sua real intenção: “é cara”, logo, não vou comprar.

Assim, o “mas” não serve para se opor a uma ideia que veio antes, como talvez aprendemos nas gramáticas, porque para isso não precisamos dele. Ele serve para reforçar um posicionamento numa disputa, num impasse. Dito isso, observem como Bolsonaro continua seu discurso:

Sei e repito que a vida não tem preço, mas a economia e o emprego têm que voltar à normalidade. Não o mais rápido possível, como tenho conversado com o Dr. Nelson. Mas ele tem que começar a ser flexibilizado para que exatamente não venha a sofrer mais com isso.”

5º: a vida não tem preço, mas a economia precisa do fim do isolamento horizontal

Percebam como ele começou o discurso defendendo a saúde, passou a colocá-la ao mesmo lado que a economia (utilizando um simples “e”) para chegar enfim ao seu ultimato: defendo primeiro a economia.

E digo mais: ele não colocou a economia em oposição à saúde, como coloquei lá em cima. Ele colocou em oposição à vida, V-I-D-A, VIDA. Aqui, não é muito minha área de análise, mas os analistas do discurso falam sobre como derrapamos no discurso e não conseguimos mascará-lo sempre. É algo relacionado ao ato falho de Freud.

Por isso, brasileiras, brasileiros e brasileirinhos, não se enganem: tempos de pandemia são também tempos políticos, pois política não é sobre fazer uma coisa ou outra, é evidente que todos estamos preocupados com Saúde E Economia. Política é sobre como lidar com a situação, é sobre fazer escolhas e eleger prioridades.

Por mais que Amossy defenda que é preciso gerir os conflitos sociais, as divergências de opinião por meio do dissenso (tipo nas polêmicas), isto é, que se faz necessária a manutenção dos diferentes posicionamentos em diversos discursos, não a fim de encontrar um acordo entre eles, mas para assegurar a pluralidade e os direitos democráticos de todos os indivíduos da sociedade, tudo o que eu mais queria era socar a cara de um presidente. Ainda bem que, pelo menos, a Manu ficou.

[1] link para o pronunciamento completo: https://noticias.r7.com/brasil/leia-o-pronunciamento-de-jair-bolsonaro-sobre-a-troca-na-saude-1604202

*Marco é tão apaixonado pela capacidade humana de se comunicar por meio da língua que cursou Letras duas vezes e fez Mestrado em Linguística. Atualmente, porém, não tem a menor ideia do que fazer disso a não ser se sentar no boteco para falar mal do que o presidente fala. Mentira: ele também dá aulas e escreve esporadicamente. 

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