O dálmata branco

Fabio Mesquita*

Conhece aquela história de que “não existe isso de falar errado”? É um clássico da linguística. Tenha a coragem de dizer que, na primeira vez em que ouviu isso, você pensou “nossa, que intuitivo”.

Se não achou absurdo logo de cara, e depois tentou levar essa ideia mais a sério, você deve ter pensado: quer dizer que a gente pode sair falando “menas laranjas” por aí? Esses linguistas não se importam se as pessoas forem reprovadas na escola, ou na vida?

Se alguém diz que as ideias da linguística, principalmente das áreas teóricas, são intuitivas, é porque provavelmente essa pessoa já deve estar bem acostumada com elas. Muitas dessas ideias não são nada intuitivas.

Por que separar língua de fala, como propõe Saussure? O que se ganha com isso? Por que considerar sintaxe como o aspecto essencial da linguagem, como quer Chomsky, e ainda defender que estudar significado é algo contraproducente? Entender o significado não é o que a gente mais quer saber?

De fato, a linguística faz uma série de afirmações estranhas, mas é porque, na verdade, a ciência é feita de propostas estranhas. Depois de acostumado, fica fácil de esquecer como era não saber de uma coisa meio abstrata. Os livros de Física dizem que toda matéria (conhecida) no universo é feita de partículas atômicas e subatômicas. Esses dias vi um físico chamado Sean Carroll dizer que, na verdade, deveríamos pensar que tudo é feito de campos, não de partículas. Pensei “droga, tomara que este cara esteja errado”. Afinal, levei minha vida inteira para entender o básico de um modelo de universo baseado em partículas.

Aliás, essa história de átomos já me soava estranha quando me ensinaram na escola. Eu aprendi que uma molécula de água é feita de um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio. Aprendi também que o sol é feito de 75% de hidrogênio. Então ok, quer dizer que a água é feita da mesma substância que constitui o sol, mas combinada com oxigênio?

Eu fui obrigado a aceitar isso na hora de fazer as provas de Química, mas na época tive minhas dúvidas. Como não fazia muita diferença para melhorar minhas habilidades (medíocres) de jogar bola ou conseguir beijar alguém, duas das minhas grandes preocupações durante o ensino médio, deixei para lá.

Agora eu estou sentado tranquilamente em minha cadeira, julgando que estou parado, mas a Física vem me dizer que eu estou girando em torno do eixo da Terra a mais de 1600 km/h, fora o fato de que também estou girando a mais de 100.000 km/h ao redor do Sol, e não sei quanto mais em relação à galáxia…

Na verdade, a gente deveria estar maravilhado em acreditar nisso. A noção do sol girando em torno da Terra está de acordo com a intuição de qualquer um que perceba o sol se movendo pelo céu durante o dia. A noção de que eu estou inerte na cadeira não casa muito bem com a ideia de rotação da Terra em torno do seu próprio eixo.

No caso da ideia da Terra ser plana, hoje é difícil de acreditar nisso porque há uma infinidade de imagens, vídeos e modelos mostrando a forma esférica dos planetas. Antes disso, só dava para conceber a esfericidade da Terra de maneiras indiretas, como fez o pensador Eratóstenes há mais de 2000 anos. Ele fincou varetas no chão em locais distantes um do outro e mediu os ângulos das sombras projetadas por elas. Então concluiu que as sombras de diferentes tamanhos eram explicadas pelo fato de que a Terra seria esférica, e ainda fez um cálculo aproximado muito bom da circunferência do planeta.

Como nem todo mundo podia ir a Alexandria conhecer esse senhor excêntrico ou mesmo ter entendido seu experimento com varetas, a ideia geral de uma Terra redonda era esquisita e compreensivelmente minoritária.

Nos tempos contemporâneos, no entanto, acreditar que a Terra seja plana implica no absurdo de supor que astronautas, pilotos, operadores de satélites, geógrafos e uma infinidade de outros profissionais estejam diariamente forjando dados, torrando um orçamento absurdo com mentiras deslavadas sobre o formato do planeta. Mas há quem ainda insista. É difícil dizer quais são as motivações dessas pessoas (devem ser muito fortes, pois há um custo social enorme em contrariar o paradigma moderno).

De qualquer maneira, é importante lembrar que o paradigma de Terra esférica foi lentamente construído sobre a intuição básica das pessoas, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico dos séculos mais recentes. Desse ponto de vista, o raciocínio default da humanidade é a Terra plana. Não espanta, portanto, que terraplanistas ainda professem sua fé nos dias de hoje. Eles ainda não se deixaram levar pelo paradigma moderno.

A intuição é uma ferramenta incrível naquelas horas em que as informações são poucas. Inclusive, é com ela que a maioria das grandes descobertas começam – com um insight, uma pergunta intrigante, uma hipótese nova. Mas ciência requer verificação e trabalho duro, e aí sabemos que a intuição pode não só não ajudar, como às vezes atrapalhar. Quanto mais a gente aprende a pensar em termos de métodos, dados e medições, mais precisa conviver com o fato de que a intuição pode errar catastroficamente, ainda mais em um mundo cada vez mais complexo e simbólico.

Leva tempo, no entanto, para que a gente confie em informações contraintuitivas, ainda mais quando elas batem de frente com um conhecimento consolidado. Hoje eu acredito no fato de que as espécies evoluem através de seleção natural, mas não foi fácil para essa ideia ganhar um lugar no meu rol de abstrações confiáveis. Eu tentava imaginar uma causa para a variedade de espécies, mas não visualizava o mecanismo de seleção funcionando, pois ele é meio abstrato mesmo, e seus efeitos demoram a aparecer, a não ser no caso de microorganismos, que eu também não via.

Além disso, havia uma ideia intuitiva e verificável jogando contra: a relação entre função e agência. Pense em um instrumento qualquer com uma função bem definida – a chave de um carro, por exemplo. Ela tem um design próprio e uma função associada: girar a ignição e ligar o carro. É fácil, portanto, imaginar que alguém planejou e produziu a chave. Algum agente foi responsável por isso, pois o acaso não planeja nada.

O mesmo deveria valer, imaginava eu, para o pescoço da girafa, o bico dos pássaros, as garras dos predadores. São traços dos animais com funções e design definidos. Logo, devia haver algum agente por trás deles também. Era intuitivo.

Depois que eu entendi o mecanismo de seleção natural, no entanto, abandonei completamente as outras alternativas. Isso coincidiu com uma tendência geral de adotar uma postura mais naturalista a respeito das coisas. Mas antes disso, eu estava levando minha vida normalmente, sem precisar entender. Não fazia diferença.

Deve ter sido curiosidade, aliada a um momento difícil da minha vida, quando fui acometido por uma indignação contra minha própria religiosidade. A religião faz bem para muitas pessoas, mas, para mim, a carga ficou pesada. O normativismo moral me incomodava. O constrangimento que eu causava entre os outros seguidores com minhas contestações frequentes também não ajudava. Eu precisei me libertar.

Eu usei uma imagem bem simples para entender o mecanismo de seleção: dálmatas.

Imaginei a seguinte situação: numa casa, havia dálmatas (não chegavam a 101 – eram, digamos, uns 10). Um dia, em uma ninhada, nasceram vários filhotes, mas um era todo branco, sem manchas. Na verdade, quase todos os dálmatas nascem completamente brancos. As manchas aparecem depois de algumas semanas. Mas esse era especial: as manchas nunca apareceram.

Mais tarde, quando esses filhotes se tornaram adultos, eu imaginei que o branco teve seus próprios filhotes com uma dálmata mais fã de machos exóticos. Como genes são danados de vontade de se espalhar, mais alguns brancos nasceram. Assim, o pelo sem manchas começou a se tornar mais frequentes entre os dálmatas da casa.

Por algum motivo, os brancos tinham muito mais sorte que os outros para acasalar (as dálmatas deviam estar cansadas de manchas), e acabaram prosperando. Depois de muitos anos, os cachorros com manchas, que eram maioria, acabaram se extinguindo devido a sua dificuldade em reproduzir. Não é só assim que as espécies se extinguem ou surgem, mas essa foi a maneira pela qual eu internalizei a ideia de seleção natural.

Só foi preciso pensar em um exemplo familiar em termos de gerações. Esse exemplo funcionou bem para mim porque ele é muito parecido com um caso clássico de seleção artificial, que é a criação de cães de raça. Seleção artificial se parece com a natural, com a diferença de que, no caso da primeira, um agente (o criador) realmente interfere. É assim que os humanos criaram as diferentes raças de cachorro, gato, cavalo, boi: selecionando.

Por que a gente não abre mais a mente para essas abstrações? Porque geralmente isso é desnecessário, e ainda pode ter custos. Dá para ir vivendo bem sem elas, e você ainda pode desagradar seu grupo, cuja identidade depende de certas crenças. É diferente de se aprender novas habilidades para conseguir um emprego. Quem precisa aprender sobre evolução são os biólogos, talvez alguns médicos e estudiosos de sistemas dinâmicos, mas o resto de nós pode seguir belas carreiras profissionais, ter família e carro na garagem independentemente de acreditar nisso ou naquilo.

Não somos criaturas feitas para viver muito, nem para descobrir verdades muito fundamentais. A maioria das pessoas pode ir tocando o barco despreocupadamente sem saber se o design dos animais foi planejado por alguma força metafísica ou não. Se a terra gira a 20 ou 1600 km/h. Se vírus se espalham de maneira linear ou exponencial.

Na verdade, não é só a despreocupação que move o conservadorismo do conhecimento. Pode ser justamente o contrário. Ater-se a ideias consolidadas geralmente é mais seguro. O mundo ainda é um lugar perigoso para a maioria das pessoas, então a estratégia de se segurar naquilo que se sabe que já funciona é, na verdade, sensata. Se não há uma necessidade imediata, as pessoas só abrem a mente para novos conhecimentos quando se sentem seguras e curiosas. A vida não costuma nos dar muitas dessas oportunidades.

Deve ser por isso que certas afirmações da linguística não colam entre a maioria das pessoas. A ideia saussureana de separar língua de fala é estranha para leigos porque, intuitivamente, conhecer o sistema e usá-lo parecem coisas equivalentes. É só parando para pensar um pouco que percebemos que a fala, nos termos de Saussure, sofre influência de diversos fatores externos, enquanto que a língua pode ser concebida como um sistema fechado. Para fins científicos, portanto, sistematizar a língua deve ser bem mais fácil que a fala.

Para chegar à clássica dicotomia langue/parole, Saussure se valeu um dos recursos mais fundamentais da ciência, o reducionismo. Quando algo é complexo demais para ser estudado, o negócio é dividir o bloco em partes menores sistematizáveis. Nada de novo, mas a maioria das pessoas não quer entender sistematicamente a linguagem, quer apenas usá-la para se comunicar, o que faz o reducionismo perder seu sentido.

Em parte, o mesmo vale para o reducionismo formalista de Chomsky. Ao eleger a sintaxe como prioritária, ele pretende atingir uma explicação universal e estável, do tipo que não se refuta empiricamente com facilidade. Gramática universal, então, tem mais chances de ser uma teoria definitiva sobre linguagem se formalizarmos, ahm, a forma, ao invés do conteúdo.

No uso diário da linguagem, no entanto, é o conteúdo que geralmente interessa, e aí mora a diferença crucial entre teoria e prática. Saber usar um celular não significa necessariamente saber como ele funciona por dentro. Mas e daí, peguntaria o usuário.

O conceito de “falar errado” também é intuitivo e consolidado demais para ser facilmente contrariado. As pessoas sabem que sofrerão consequências negativas se escreverem textos com desvios de norma culta, ou se falarem com certas marcas consideradas incorretas, como “menas”. Os falantes sabem que serão julgados socialmente pela sua linguagem, porque, afinal, julgamentos sociais a respeito de vários outros aspectos humanos ocorrem o tempo todo.

Julgamos os outros pela atitude, pela etnia, pela maneira que seguram o garfo, e por aí vai. Por algum motivo, algumas convenções são estabelecidas como corretas, apesar dessa noção de correção ser quase sempre dependente de contexto. Não há motivo razoável para julgar a priori um jeito de segurar talheres como certo ou errado, mas dependendo da situação social, as pessoas reagem a violações dessa etiqueta porque esperam que as regras sejam seguidas. Isso deve ocorrer para fortalecimento do grupo ou manutenção da estrutura de poder, algo assim. A correção, portanto, é só uma questão de julgamento de valor externo, não do gesto em si. Não é a colher, mas quem a segura.

O mesmo vale para a expressão “menas laranjas”. Há convenções ditando que o correto seria dizer “menos laranjas”, mas como saber qual dessas expressões é melhor de um ponto de vista estritamente gramatical? A pessoa que diz “menas” está fazendo uma concordância de gênero com “laranjas”, da mesma maneira que ela faz com “muitas laranjas”.

Já na expressão que segue a norma culta, “menos” é considerado um advérbio, como “mais”. Advérbios não variam, portanto não concordam nem em termos de masculino e feminino, nem singular e plural. Mas classificar “menos” e “mais” como advérbios é uma escolha teórica. E se essa classificação não for boa? Teorias, assim como a intuição, também falham.

Qual gramática funciona melhor nesse caso: com concordância ou sem concordância? Posso imaginar vários argumentos que podem defender um lado ou outro, mas, para a maioria das pessoas, o julgamento social é uma questão muito mais pertinente do que a gramatical, e, ainda por cima, o social está intimamente ligado à convenção.

Logo, as pessoas podem facilmente ignorar um linguista defendendo a neutralidade da gramática. Essa ideia simplesmente não se encaixa na visão de mundo baseada em normas e convenções, que abundam na sociedade.

Confesso que não sei exatamente como fazer com que os conceitos da linguística sejam melhor aceitos pelo público, mas com certeza, um bom começo é NÃO ignorar o fato de que os conceitos podem facilmente contradizer a intuição das pessoas, e que elas precisam de tempo para superar os paradigmas já estabelecidos (há muito tempo) sobre linguagem. Se é que realmente desejam superar.

Em minhas aulas sobre norma culta, eu procuro contar algumas parábolas. Não sei se elas são realmente eficientes, mas são tentativas honestas de se levar em conta o conhecimento prévio dos alunos. Uma delas é a do linguista jupiteriano. É mais ou menos assim:

Houve um congresso sobre linguagem humana em Júpiter, e um dos trabalhos apresentados era de um linguista local que passou uma temporada na Terra, mais especificamente no Brasil, coletando dados sobre “menos” e “menas”. O pesquisador jupiteriano descobriu que uma parte dos terráqueos brasileiros usava a expressão “menos laranjas” e outra parte usava “menas laranjas”.

Ele então atribuiu duas gramáticas distintas a essas expressões: uma sem concordância e outra com concordância. Em outras palavras, “menos” seria classificado como uma classe de palavras invariáveis e “menas” seria de palavras variáveis, estas abertas à concordância. É importante destacar que o trabalho não era de sociolinguística alienígena, ou seja, as condições sociais e as motivações dos terráqueos foram abstraídas.

Ao final da apresentação, um membro da audiência, um gramático vindo de Saturno, perguntou ao linguista: “E qual das duas gramáticas funciona melhor para os terráqueos, caro colega jupiteriano?”.

É nesse momento que eu encerro a parábola e me viro para meus alunos perguntando “e então, qual gramática é melhor? A do menos ou a do menas?”. Os alunos apresentam justificativas variadas, algumas muito boas, mas eu sempre os lembro que a resposta, como sempre, depende. Depende se o critério principal é convenção ou é consistência com outros fenômenos gramaticais. E também depende de como medir essa consistência, e assim por diante.

A ascendência alienígena do personagem acima serve para destacar que ele, em tese, tinha mais condições de se isentar de julgamentos sociais humanos, e, portanto, poderia se concentrar melhor no problema gramatical em si. Ou seja, esse é um truque para fazer os alunos admitirem a existência do julgamento social, mas tentar suspendê-lo para fins reducionistas.

Este é só um exemplo, e, às vezes, a cara feia de alguns alunos me faz duvidar se ele funciona mesmo, mas existem muitas outras maneiras de se tentar levar em conta as crenças prévias e raciocínios intuitivos das pessoas, como a historinha dos filhotes de cachorro que me fez entender a evolução por seleção natural.

Tudo pode ser construído a partir do conhecimento do outro. Se a linguística pretende ser uma área de pesquisa mais atraente, ou mesmo se popularizar, ela precisa discutir a linguagem de um jeito que faça mais sentido para o público em geral do que para os linguistas. Afinal, a gente não quer ficar sendo olhado com desconfiança quando fala do nosso próprio objeto de pesquisa.

*Fabio Mesquita é Doutor desassalariado em Linguística pela UFPR

Um comentário em “O dálmata branco

  1. Muito bom 😊 construir conhecimento pesquisar discutir 🤩 “porque uma frase só existe quando é a extensão em letras da alma de quem a diz” Eliane Brum🥰

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