A fala do Cebolinha e a imagem equivocada sobre a relação entre sons e letras

Adelaide H. P. Silva*

No último final de semana, uma publicação do ministro Abraham Weintraub inaugurou um novo capítulo na guerra diplomática que o atual governo vem travando com a China. Há um aspecto evidente naquela postagem, que é o preconceito contra os chineses, expresso no texto da postagem. Esse preconceito foi exaustivamente tratado, inclusive em vários memes que passaram a circular pela internet, condenando a ação. Mas existe um outro aspecto, que reforça o preconceito, relacionado ao nível sonoro das línguas e que ajuda o ministro a construir a imagem sobre “como falam os chineses”. E é esse o aspecto que me interessa tratar.

Vamos lá: todo mundo sabe que um mapa deixa de lado coisas que existem num território, pela simples razão de que é impossível colocar numa representação todas as características de um objeto representado. Um mapa que apresentasse todas as árvores e riachos, por exemplo, do território que representa, seria a reprodução do território e, por isso, se tornaria inútil. (Jorge Luis Borges, aliás, tem um conto bem bom sobre a diferença entre representação e reprodução, chamado “Del rigor en la ciencia”, e que a gente encontra facilmente na internet).

Ora, se a escrita é representação (uma mapa) da fala, alguns aspectos da fala estarão presentes na escrita e outros, não. Exemplo? Alongamento de vogais, ênfase (ou foco, como chamamos na linguística). Por isso, os falantes dão um jeito, às vezes, de inventar algumas representações. Na internet, a gente vê coisas como “MUUUUUIIIIITO”, com a caixa alta pra sinalizar ênfase e as vogais repetidas pra sinalizar o alongamento do ditongo. Coisa que a gente faz o tempo todo na fala.

Mas a postagem do ministro reproduz o senso comum equivocado de que “a gente fala como escreve”. Grande engano! Mais um exemplo: voltemos ao “muito”. Pronuncie a palavra. Embora não haja “letra n” depois do ditongo, você nasaliza as vogais, como qualquer falante de português brasileiro. Por isso, volta e meia a gente escuta uma pergunta como: se a gente fala o ditongo nasalizado, por que não escreve “muinto”? Porque a escrita, como mapa da fala, deixa alguns aspectos de lado, lembra? Esse é um deles.

Existe uma outra razão pra gente não escrever “muinto”, que é a “herança histórica” da língua, a origem dessa palavra, há muitos séculos. Mas os falantes em geral não conhecem essa história e nem têm mesmo que conhecê-la. Esse é um trabalho para os filólogos. E é por isso que eu não vou enveredar por esse caminho histórico.

Voltando à postagem do ministro, e à tentativa de “imitar o português falado por chineses”: ela revela claramente que o ministro não se dá conta de que o lambdacismo – ou substituição de /r/ por [l] – não acontece em final de palavra na fala de ninguém. Por quê? Porque o som de /l/ presente em final de palavra é diferente daquele presente em início de sílaba e de palavra.  Ou no início de sílaba, no meio de palavra. Ou ainda em grupos consonantais. E isso é fácil de perceber: é só pronunciar, em voz alta, palavras como “lata”; “cola”; “placa”. É fácil contrastar a pronúncia da consoante /l/ com o som que acontece no final da primeira sílaba em “malva” e no som do final da palavra em “anel”.

Nosso sistema de escrita só anota os sons que são distintivos, quer dizer, a gente só tem letras para anotar sons que fazem diferença de sentido entre palavras, como “pulo” e “puro”, por exemplo. Como, embora diferentes, os sons de /l/ que acontecem em início e em final de palavra não são distintivos, nosso sistema de escrita (nosso alfabeto) não tem letras diferentes pra escrever o som inicial de “lata” e o som final de “anel”.

Esse era um equívoco que existia na caracterização da fala do Cebolinha e que o Maurício de Souza corrigiu.[1] Era um equívoco porque a estratégia para caracterizar a fala infantil naqueles quadrinhos era simplesmente substituir a letra <r>  pela letra <l>. Mas, como eu tentei mostrar até aqui, nós não falamos letras. Nós falamos sons.


Mas ainda sobram dois outros aspectos da caracterização da fala do Cebolinha – e, de carona, da imagem do português falado por um chinês – que merecem ser tratados. Eu me refiro ao som de /r/ em início de palavra e ao som de /r/ em grupo.

Vamos ao som de /r/  em início de palavra. Na postagem do ministro, temos a forma “lelativo”, por “relativo”. Mas será que o Cebolinha falaria assim? Ou, colocando de outro modo, será que uma criança fala assim? Será que um chinês, necessariamente, também fala assim? Você já deve ter ouvido o jornalista Galvão Bueno berrando “Rrrrrrronaldinho”, quando esse jogador ainda jogava e marcava um gol. Se não ouviu, vá até o Youtube e procure um desses vídeos. Eu menciono o Galvão Bueno porque esse som de /r/  que ele produz no início da palavra já foi frequente no português falado no Brasil. Pronuncie “Ronaldinho”. Você faz outro som, certo? O mesmo som do início de “rato” e de “relativo”. Esse som que o Galvão Bueno faz nessa palavra específica recebe o nome técnico de “vibrante alveolar” (sim, os sons também têm nomes técnicos!) ou “vibrante múltipla, ou /r/ forte. Qualquer que seja o nome com que a gente trate desse som de /r/ , o fato é que ele vem sendo substituído por um “ruído”, que é esse som que a maioria dos brasileiros produz no início das palavras. Esse som pertence à mesma família do som inicial da palavra “sapo”. E, se a gente considera a aquisição dos sons do português brasileiro, a gente verifica – como fazem há muito tempo os estudiosos dessa área – que esses sons consonantais aparecem cedo na fala de uma criança. Lá pelos dois anos, mais ou menos, uma criança consegue falar “rato” sem problema.

Onde eu quero chegar com essa informação sobre a aquisição de linguagem? Quero chegar à observação de que as crianças não falam “lato” no lugar de “rato” e, portanto, não falariam “lelativo” no lugar de “relativo”. A menos, talvez, que pertençam a um dialeto cujos falantes ainda produzam o /r/ igual àquele do Galvão Bueno. Mas, como a vibrante alveolar está desaparecendo do português falado no Brasil, é praticamente impossível encontrar alguém que faça “lato”.

Também sob esse aspecto, a fala do Cebolinha precisava ser revista. Porque ainda se baseia na  simples troca da letra <r> pela letra <l>. Como ninguém fala letra, a fala do Cebolinha soa artificial.

Quanto à fala dos chineses, é preciso investigar como um imigrante chinês fala português. É certo que o mandarim, por exemplo, não faz a distinção entre /r/ e /l/, mas essa informação, por si só, é insuficiente pra afirmarmos que chineses simplesmente trocam um som pelo outro.

Obviamente, o ministro não se deu conta disso em sua postagem. E faz a relação simplista de que “chineses, como o Cebolinha, trocam a letra <r> pela letra <l>”. Ofensivo e impreciso, pra dizer o mínimo.

Finalmente, o som de /r/ em grupos consonantais, isto é, sequência de uma consoante, como /p,b,t,d/ seguidas de /r/, na mesma sílaba. Os linguistas que estudam o processo de aquisição dos sons do português brasileiro, isto é, como as crianças aprendem a produzir os sons da nossa língua, notam que o som de /r/ em palavras como “prato” são os últimos sons a serem adquiridos, lá por cinco anos, às vezes até mais tarde do que isso. (E existe uma explicação pra essa dificuldade, mas não vou tocar nela aqui.)  Antes de conseguirem fazer palavras como “prato”, as crianças têm três caminhos possíveis: 1) ou “enxugam” o grupo, e fazem simplesmente “pato”; 2) ou desdobram o grupo, e fazem algo como “parato”; 3) ou produzem “plato”, “trocando”, portanto, /r/ por /l/. Os mesmos pesquisadores observam que essas estratégias não são mutuamente exclusivas, quer dizer, a criança que realiza a primeira estratégia pode alterná-la com as outras duas. Além disso, as duas primeiras estratégias parecem mais recorrentes que a terceira. Por isso, seria mais verossímil que o Cebolinha produzisse “Basil”, e não “Blasil”, em substituição a “Brasil”.

Mas essas não são, necessariamente, as estratégias que falantes de mandarim usam para produzir palavras do português. Por que eu digo isso? Embora não tenhamos dados de aquisição de português do Brasil por falantes nativos de mandarim (e notem que eu estou reduzindo as línguas faladas na China ao mandarim, mas há muitas outras), nós temos dados de falantes de japonês que aprendem português. Por que recorro a esses casos? Porque o japonês também não tem a distinção entre /r/ e /l/ e porque o japonês, como o mandarim, prefere sílabas do tipo “consoante + vogal”, ou CV, como os linguistas costumam se referir a elas. Os falantes de japonês frequentemente “desdobram” os grupos, e acabam produzindo algo como “parato”, para “prato”.

O mandarim é uma língua que prefere sílabas CV. Por isso, a gente pode lançar a hipótese de que eles ou “enxuguem”  os grupos consonantais ou “desdobrem”  os grupos. Mas fazer algo como “plato” é muito pouco provável, pelas razões que comentei.

Dados esses comentários, deve ter ficado claro que, como qualquer demonstração de preconceito, a postagem do ministro é rasa no que concerne ao conhecimento do nível sonoro da língua, e se baseia num senso comum que assume que “falamos letras” e, complementarmente, “falamos como escrevemos”. Duas crenças absolutamente infundadas, como eu procurei mostrar, e que têm de ser superadas, especialmente por aqueles que se dedicam ao ensino de línguas, seja a nossa língua materna, sejam línguas estrangeiras.

[1]

*Adelaide P. H. Silva é professora de linguística na UFPR.

2 comentários em “A fala do Cebolinha e a imagem equivocada sobre a relação entre sons e letras

  1. Ministro da educação sem educação!

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  2. Luiz Alvim Santiago Rocha 8 de abril de 2020 — 20:07

    Boa noite, acho que o ministro foi infeliz nos comentários, ele quis se engraçado num momento de seriedade. Nos brasileiros brincamos muitas vezes com as falas do Cebolinha, mas, temos outros exemplos de consoantes traçadas como bicicreta, fluminense, por exemplo, mas, procuramos nos mesmo corrigir a fala para nos sentirmos mais culta, talvez, o certo é, sejamos menos rigorosos com nossa fala e não sejamos tão “engraçados” com a linguagem dos outros povos.

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