A língua que nos faz rir

Deni*

Há poucos dias circulou nas redes a seguinte notícia:

Além do fato do Ronaldinho ter sido preso no Paraguai, com passaporte falso, sendo embaixador do turismo no Brasil já parecer uma piada, o enunciado que noticiou o aniversário fez muita gente rir: Ronaldinho Gaúcho completa 40 anos preso no Paraguai. Mas por que é engraçada? Você pode pensar “lá vem o linguista explicar a piada e fazer ela perder a graça” ou “lá vem o chato mandar reescrever”; sugiro, contudo, que deixe essas picuinhas de lado, uma vez que a análise do humor nos revela muito sobre a natureza da língua – o que é absolutamente interessante – e sobre questões sociais – muitas delas preocupantes, por exemplo, piadas racistas e machistas, que não têm graça nenhuma.                

Bem, qual é a graça do Ronaldinho Gaúcho completa 40 anos preso no Paraguai? A resposta mais tranquila é a ambiguidade da sentença, que permite duas interpretações:

1. Ronaldinho Gaúcho fez aniversário de 40 anos no momento em que está preso no Paraguai.

2. Faz 40 anos completos que Ronaldinho Gaúcho está preso no Paraguai.

Mas o linguista não se contenta em dizer que é ambíguo, tem que explicar o que gera a ambiguidade. Bom, a intenção da notícia obviamente era anunciar o aniversário do jogador, a primeira interpretação possível, mas aí veio a estrutura linguística e… Sim, foi ela! E aqui temos uma questão de escopo. Na primeira interpretação, 40 se aplica a anos, ou seja, indica a idade completada pelo jogador. Tanto é que eu posso mover esse pedaço e a ambiguidade se desfaz “Preso no Paraguai, Ronaldinho Gaúcho completa 40 anos”. Notem que, em termos de posição na estrutura, é possível substituir por um advérbio como “hoje”: Ronaldinho Gaúcho completa 40 anos hoje; Hoje, Ronaldinho Gaúcho completa 40 anos. Na segunda interpretação possível, o 40 anos se aplica ao preso no Paraguai, gerando o sentido do tempo de prisão que Ronaldinho completa no Paraguai. Como sabemos, afaz pouco tempo que o jogador foi preso no Paraguai, logo a segunda interpretação quebra um conhecimento comum, quebra a expectativa, por isso é a engraçada. E, nós, sacanas que somos, pensamos: hmm… será que ele tem motivos para ficar 40 anos preso no Paraguai?

O aniversário do Ronaldinho está longe de ser a primeira manchete e nem será a última, por mais que jornalistas cuidadosos tentem evitar, que traz fenômenos como esse, porque, como eu disse antes, a natureza da língua possibilita essas estruturas, e, algumas vezes, por mais preciosismo na escrita que tenhamos, não conseguimos nos livrar delas.

            Faz um tempo já que me deparei com a seguinte notícia:

Aqui o termo cair é ambíguo, entre um sentido mais concreto e outro mais abstrato, respectivamente: o de um objeto que cai e o de um número que reduz. Adivinhem qual interpretação saltou aos olhos da pessoa aqui que tem medo de avião? A interpretação esperada pelo repórter era que o número de voos diminuiu. A interpretação que gera o humor foi a da quantidade de voos que caíram. Rimos do susto.

Rimos do susto, das intenções, dos sentidos que queremos e que, por uma possibilidade linguística aparecem “meio sem querer”. É caso do seguinte título sobre o navio que está encalhado:

Navio com minério encalhado no Maranhão ameaça envolver a Vale em nova tragédia[1]  


Aqui, de novo, o escopo explica: encalhado se aplica ao navio com minério ou o encalhado modifica o minério apenas. É óbvio que o sentido pretendido é o navio estar encalhado. Mas, nossa curiosidade, provocada pela pitada de humor, nos leva a estender a segunda possível interpretação: o que quer dizer o minério encalhado? se desse a entender que há problemas na mineração, tais como o pouco cuidado, o tratamento ultrapassado, que geram o encalhamento do minério? o que a Vale tem a ver com isso? E por aí vamos… Pode não ser a intenção do jornalista permitir essas divagações possíveis e, de certo ponto de vista plausíveis, mas a língua deixa.

A língua deixa, mas em vários momentos ela faz isso de uma forma tão complexa que fica difícil explicar.  No momento de cuidados com a pandemia de coronavírus, um supermercado divulgou as seguintes orientações:

O foco maior para qualquer pessoa cliente do mercado está nas orientações e na preocupação em manter o estabelecimento funcionando, a saúde dos funcionários e o abastecimento de itens básicos para a população (meus sinceros agradecimentos!!!). Ao linguista, além de tudo, chama a atenção a sentença:

Evite vir idoso

Bom, não precisamos de muito esforço para entender que a orientação é para que se evite que idosos frequentem o local, sob o risco de contaminação pelo vírus. Mas olhem que interessante o que acontece, vou arriscar a elaboração de uma explicação: a sentença tem uma estrutura em que esperamos uma propriedade passível de ser alterada, variável, como evite vir a pé/sem camisa/de capacete/descabelado. Porém, ela traz uma propriedade que não tem como alterar, quer dizer, não posso deixar de ser idoso e ir jovem ao supermercado, logo não tem como “evitar”. Isso tudo porque as orientações foram construídas com base na referência espacial de quem está dentro do mercado, o destaque aqui é para quem trabalha no estabelecimento, por isso o “vir” e não o “vá” ou o “leve”.

Rimos da impossibilidade de seguir a orientação, se levarmos ao pé da estrutura a interpretação. Mas, o que acho mais importante, não é hora de entrar com pedantismo e pedir que se corrija a orienta

 Rimos, portanto, do susto, das intenções, da quebra de expectativa, da motivação política, das impossibilidades. E é a língua, com suas variações estruturais, que nos faz enxergá-las.  É a língua que nos revela o para além da língua.

Diante disso, não sei até que ponto podemos determinar e limitar as estruturas linguísticas, mas podemos escolher o que é ou não engraçado. A palavra “furo”, por exemplo, é ambígua e nunca vai perder sua ambiguidade. Mas as piadas que são feitas com ela não são engraçadas, já faz tempo que deveriam ter perdido a graça, sobretudo em contextos em que o propósito do humor é ofender.[2]


[1] https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-02-27/navio-com-minerio-encalhado-no-maranhao-ameaca-envolver-a-vale-em-nova-tragedia-ambiental.html?fbclid=IwAR2opzkB7Xl2nH_DOUSDsLiQfkwU3SGshUAea4dayA7KMbEsumzk6BYkjKU

[2] https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-11/por-que-bolsonaro-tem-problemas-com-furos.html?fbclid=IwAR0sJlWxHX0T290iUm8-RkC0VcsXuXGcie_fS5GkTAObK2OAhFiqcKEaXtc

Para quem quer ler mais sobre a o humor e a língua, sugiro os texto do Sírio Possenti. Um deles: http://cienciahoje.org.br/coluna/escopos-e-piadas/. Há outro também publicado no Ciência Hoje, com o título o Humor e Língua, mas eu perdi o link.

*Denise Miotto Mazocco é uma linguista com bom senso, de humor também.

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