Erro de Português

Deni*

Uma das primeiras coisas que aprendemos no curso de Letras é a diferença entre fala e escrita: respectivamente, o que é natural e o que é convencional, o que é variável e o que é padronizável.  

            Um dos objetivos de um sistema de escrita é garantir a comunicação entre interlocutores distantes no tempo e no espaço. Por isso, se vale de sinais gráficos que tentam “imitar” os “sons” da fala. Sendo uma convenção, há elementos na escrita que são arbitrários, quero dizer, não conseguimos encontrar uma regra clara que os explique. Encontramos, às vezes, alguma explicação etimológica, mas a partir dela uma generalização é sempre imprecisa. Temos, por exemplo, várias letras que correspondem a um mesmo “som”: é caso, por exemplo, dos ss, c, ç, da clássica dupla seção e sessão, de que gostam de fazer pegadinhas os concursos mais tradicionais. Até hoje eu me confundo qual significa o quê, provavelmente perderia a questão do concurso. Muitas palavras aprendemos a escrever por memorização e é comum dar uns brancos de vez em quando. Dias atrás eu tive que conferir se pressa era com ç ou ss antes de enviar uma mensagem (Antes que perguntem, sim eu desativo corretores automáticos! me incomoda a criatividade linguística censurada!). Mas por que pressa é com ss e peça é com ç?

            Na última década, temos um elemento a mais. A possibilidade de comunicação escrita imediata. O whatsapp e seus antecessores criaram um campo em que oralidade e escrita se misturam, uma vez que não nos valemos de vários elementos do registro padrão escrito por se tratar, na maioria das vezes, de comunicação informal. Assim, dispensamos em vários momentos, a acentuação, a pontuação, as letras maiúsculas, sumimos com letras, preposições, abreviamos e mandamos uma “carinha” para que o interlocutor entenda nosso estado de espírito no momento da escrita, já que não temos entonação (não falo dos áudios, são um caso à parte; quem manda áudio muito longo também é um caso à parte). O que vale é a criatividade para garantir a comunicação. E isso é ótimo! Afinal, a língua é criativa.

            Da consciência dessa divisão teórica, derivam duas posturas dos linguistas, entre outras: i. se contrapor à ideia equivocada de que cometer erro ortográfico é assassinar a língua portuguesa; ii. defender um ensino de língua portuguesa (não vou entrar no mérito da nomenclatura aqui, considerando que língua materna não se ensina, o que se ensina é domínio do registro formal – isso daria outro texto) que permita ao aluno o contato com diferentes variações da língua falada em diferentes contextos de uso e a compreensão do funcionamento de uma língua natural, bem como que possibilite o domínio da interpretação e produção de textos em seus diferentes gêneros textuais.

            Em uma aula de produção de textos, portanto, pode ser que um aluno escreva um texto muito bom, mas por um descuido troque um ç por um ss, um s por um z, tipo em vizualização (aliás, poderia ser com z mesmo né, é bonito dois z, escrevam em letra cursiva, parece uma prateleira com mão francesa). Pausa: por que o zação de visualização é com z e o de paralisação é com s? Porque visualização vem de visualizar e paralisação vem de paralisar. Então por que o izar de visualizar é com z e o isar de paralisar é com s? Porque sim, Zequinha! Vejam, o que quero dizer aqui é que são dúvidas previstas, comuns, que, na maioria dos casos, a resposta é a convenção. No caso do nosso aluno de texto ótimo, o melhor seria orientar para que quando tiver uma dúvida ortográfica como essa procurar um dicionário. Assim, de leve, sem traumas. Muito mais eficiente do que tentar quantificar esse “erro de português” e descontar a nota ou fazê-lo se sentir equivocadamente ignorante, considerando que ele de fato pode se tornar uma pessoa que escreva muito bem.

     Diante disso, entendo que, na produção de texto, existem “erros” que são muito mais comprometedores para efeitos de comunicação do que os ortográficos. Me refiro à estrutura de períodos, à pontuação, à articulação/encadeamento de ideias, a expressões vagas e, claro, falta de domínio do conteúdo. Mas são os erros ortográficos que mais causam alvoroço na imprensa e nas redes sociais, principalmente quando cometidos por alguma figura pública.  E nesses momentos é importante que linguistas se manifestem, apesar de nunca pedirem nossa opinião. Aliás, é por isso que ideias como a tal de assassinar a língua portuguesa ainda são recorrentes.

      Mas a questão é como se manifestar? Eu me faço essa pergunta desde o primeiro deslize ortográfico do Ministro da Educação – que está ficando famoso por isso. Temos aqui alguns pontos importantes em jogo:

1. a posição/o cargo ocupado, Ministro da Educação;

2. o fato de a maioria dos “erros” aparecerem em posts nas redes sociais, onde a informalidade predomina para efeitos de comunicação, o que, a princípio, não tem problema nenhum;

3. o cuidado que o linguista tem que ter para não cair no purismo e no pedantismo que tanto combate dadas as questões teóricas.

            Com essas cartas na mesa, uma das saídas é considerar que, dada a posição de Ministro da Educação, Abraham Weintraub deveria, pelo menos, cuidar com a ortografia, saber escrever, saber se comunicar e, já que o governo elegeu o twitter como canal de comunicação oficial (além das lives), os textos(inhos) manifestados ali deveriam ter certo grau de formalidade. Além disso, a sua posição exige um decoro, o qual não se faz só de terno e gravata, mas também de palavras. Parece que ele não se preocupa muito com o decoro, dado o modo como trata jornalistas e opositores.

            Mas não acho essa explicação suficiente. Não ajuda em nada, só aumenta o alvoroço das redes. Para chegarmos a uma análise mais produtiva, vamos tentar entender quem é o Weintraub quando escreve. Adianto que não quero ser condescendente com ele – nesses casos só o Fagner para perdoar deslizes (desculpem a piada… mas confesso que foi a primeira coisa que pensei sobre esse caso).  Bem, no twitter do imprecionante, o que ele escreveu abaixo é muito mais preocupante: “Não havia a área de pesquisa em Segurança Pública”[1]. Percebam: o Ministro da Educação, cuja pasta é responsável pelas Universidades, afirma que não há pesquisa em Segurança Pública, quando, muito pelo contrário, temos centros de pesquisa e pesquisadores muito importantes nos departamentos de Ciências Sociais, História, Direito… das nossas Universidades (indico uma entrevista como exemplo[2]). Um problema que incomoda o governo é: essas pesquisas defendem que não se deve armar a população, isso aumenta a violência; propõem políticas públicas de inclusão social; consideram que a polícia não deve ter liberdade para sair matando civis, o policial precisa ter treinamento adequado e amparo social e psicológico; entre muitas outras propostas. Então, por parte do ministro, de duas, uma, ou as duas: i. é uma ignorância muito grave sobre a educação superior e a ciência brasileira – ignorância muito mais grave do que saber a grafia de impressionante (entendem?); ii. é um desprezo proposital, dado que tudo indica que o governo atual quer enfraquecer, desestabilizar, a educação pública, de modo a justificar uma privatização; o enfraquecimento é, sobretudo, discursivo.

            Além de atrapalhar o funcionamento das Universidades (da ciência!), principalmente com corte de verbas e tentativas de mexer na gestão interferindo na escolha de reitores e pró-retiores, o MEC comete um erro muito grave no ENEM, principal exame para ingresso no ensino superior[3], e trava as discussões sobre FUNDEB, dizendo que tem sua própria proposta, sem que haja diálogo, não só com o Congresso, mas também com instituições de educação pública e profissionais da educação[4].

            O que há de comum, portanto, em tudo isso? Weintraub não se preocupa em consultar um dicionário (ou o tal do corretor automático) do mesmo modo que não se preocupa em conhecer o funcionamento das instituições e programas de ensino do país. Essa não preocupação é proposital. Serve à sua postura autoritária, construída pela arrogância e legitimada por um governo que se quer autoritário, que quer destruir as instituições públicas. Nesse jogo, umas das estratégias do governo também é a não decisão.[5]

            Particularmente, como linguista, eu gosto de complementar minhas análises sobre a escrita com outras áreas. Descobri, faz poucos dias, um livro de Eliane Brum (jornalista e escritora) que reúne alguns de seus artigos.[6] Em um deles, sobre a escrita, ela comenta sobre as palavras do psicanalista Hélio Pellegrino:

“Sempre que leio uma entrevista ou um texto dele, fico pensando com alguém pode dizer algo tão elaborado com tanta simplicidade, numa resposta oral a uma pergunta que não esperava. E com tanta generosidade para aquele que o escuta. Suas palavras não machucam porque não foram pensadas para ferir. Com a ponta dos dedos, elas acariciam. Foram pronunciadas para dar uma chance ao interlocutor, leitor. São como uma mão que alcança – e não um pé que esmaga. Vivemos num mundo em que as pessoas se sentem mais seguras quando se tornam pés que esmagam. A mão que alcança exige mais coragem, porque alcançar é sempre um risco – e esmagar tem um final previsível” (BRUM, 2013, p. 33)

            Weintraub é pé que esmaga. O final previsível é a destruição.

           Assim, entendo que esses erros ortográficos do Ministro da Educação são apenas sintomas de sua insistência arrogante em repetir o maior erro de português, de fato: desprezar e destruir tudo o que havia antes de ele chegar.


[1] https://www.cartacapital.com.br/educacao/ministro-da-educacao-comete-novo-erro-ortografico-e-escreve-impressionante-com-c/

[2] https://www.youtube.com/watch?v=8yXidQifeDU

[3] Sobre isso, uma entrevista muito importante: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-02-03/ocimar-alavarse-sem-apuracao-profunda-no-enem-nao-se-sabe-quem-errou-nem-como-corrigir-o-erro.html

[4] https://www.cartacapital.com.br/educacao/weintraub-esta-chamando-de-demagogo-o-proprio-presidente-bolsonaro/

[5] https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2020/O-que-acontece-quando-a-falta-de-decis%C3%A3o-%C3%A9-o-m%C3%A9todo-de-governo

[6] BRUM, Eliane. A menina quebrada. Porto Alegre, Arquipélago Editorial, 2013.

*Denise Miotto Mazocco é doutoranda (quase no fim) em Estudos Linguísticos pela UFPR.

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