Enquanto os homens exercem seus podres poderes

Stella* e Nai**

Se o ano no Brasil só tem início após o carnaval, esperamos que esse janeiro esteja sendo o resultado da embriaguez fruto do verão: pé na areia, a caipirinha, água de coco, a cervejinha. Mas janeiro não se resolve como a mais forte das ressacas. No mesmo dia que um jornalista decide discutir se a venda de órgãos deveria ser analisada no Brasil (sim, foi isso que você leu), o diretor Wagner Moura anuncia a estreia oficial do filme Mariguella para maio de 2020 (o filme foi lançado em fevereiro de 2019 no festival de cinema de Berlim). Se o jogo parecia estar ganho pelo menos no dia 16 de janeiro, fomos surpreendidos pelo 7 a 1 mais perturbador (se é que isso era possível) na noite desta quinta-feira pelo secretário de cultura do governo Bolsonaro, o diretor de teatro Roberto Alvim.

O secretário (o único secretário sério da cultura segundo o presidente, ai que saudades do meu ex, ministro Gil) em pronunciamento decidiu lançar mão de um #tbt e durante 6 minutos de vídeo divulgou um programa de incentivo a arte através da Funarte, com estética e discurso baseado/inspirado no ministro do 3 Reich, Joseph Goebbels. Conhecido pela dedicação à propaganda do governo nazista, Goebbels passou à História como o arquiteto da política racista e genocida da Alemanha de Hitler. Não só o conteúdo deveria ser cuidadosamente manipulado para os fins desejados, mas também a forma de apresentação passou a ser rigorosamente estudada e desenhada para produzir no espectador uma catarse nacionalista. Aos moldes da propaganda nazi, Alvim se apresenta no centro da câmera, com postura de autoridade que se curva apenas à imagem de seu líder que figura em um retrato acima daquele que nos dirige a palavra. Ainda seguindo tal estética, vemos a bandeira do Brasil na esquerda da tela e uma cruz jesuíta à direita evidencia o messianismo do projeto em questão (aqui atuando como um substituto para o símbolo nazista da suástica). 

Se isso já  não fosse o suficiente, é  necessário  que agora falemos um pouco sobre o famigerado conteúdo do vídeo. Qualificado apenas como infeliz pelo presidente Jair Bolsonaro, a fala de Alvim é na realidade criminosa. Não bastasse a inspiração estética em Goebbels, Alvim completou sua apologia ao nazismo ao se utilizar expressamente de ideias defendidas no turbilhão de destruição que foi a Alemanha do III Reich. Para Goebbels na década de 1930: “a arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”. Para Alvim, em 2020: “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada”.

Sabemos quais foram os resultados da estética heroica elaborada pelos nazistas desde a condenação da arte moderna de vanguarda, considerada arte degenerada, até a produção de uma sociedade livre de qualquer tipo de desvio ou degenerescência que levou não só ao extermínio de milhões de judeus, mas também de ciganos, negros, gays e lésbicas, além da esterilização em massa de mestiços e doentes mentais. A “arte livre de sentimentalismo” de Goebbels, no entanto, é repaginada na versão brasileira do século XXI como uma “arte dotada de grande envolvimento emocional”, expressando o quão importantes têm sido as paixões políticas nas definições das pastas atuais.

Embora, na sexta (17/01) já tenha sido exonerado do cargo, por um presidente que mais uma vez afirmou a incompreensão da população com tamanha ousadia, a questão continua… os ratos saíram do esgoto? A cortina de fumaça se mantém? Era só para polemizar? O que tinha na cabeça um secretário, sua equipe e a comunicação do atual governo em achar que está tudo bem referenciar isso aí?! Quando é que o flerte autoritário deixou de ser flerte e virou uma parte do Retrato de Dorian Gray?

A história da preservação da cultura e arte brasileira é  permeada principalmente por três condições: continuidades, rupturas e desaparecimentos. Se formos rigorosos, a preocupação com a preservação do patrimônio nacional e defesa da cultura nacional só vai ser apresentada no século XX e sempre permeada pela tutela do estado. A criação das instituições de tutela se dão  somente após a posse de Vargas em 1930, mais especificamente em 1937 com a criação do Sphan (serviço de patrimônio histórico e artístico nacional), pensando principalmente na criação de uma identidade e formação do cidadão patriota e nacionalista. Patriotismo e nacionalismo voltados a glorificação e valorização do que era produzido por brasileiros em território nacional  e não made in Usa. A gestão da cultura nunca esteve tão vinculada a um discurso de limpeza do que é degenerado, impuro, desvirtuado ou promíscuo, quanto agora no projeto deste governo. E mesmo quando, na primeira metade do século XX, a discussão se deu de forma mais profunda, a fim de definir o que deveria ser considerado nacional e relevante,até mesmo nos períodos mais autoritários e/ou ditatoriais, em que censura e o controle eram práticas cotidianas.

Se durante o governo Vargas a cultura estava dividida em duas frentes entre o Ministério da Educação e Saúde Pública e o Departamento  de Imprensa e Propaganda, hoje diante do imenso retrocesso parece completamente natural fazer apologia a um regime fascista, eugenista  e de extermínio. E, convenhamos, que inserido no cerne do governo Vargas tínhamos integralistas dos mais apaixonados a frente de instituições culturais (aliás, o Professor Odilon Caldeira Neto nunca se fez tão relevante quanto os últimos tempos ao mostrar que nem tudo ficou nas Portas dos Fundos[1]).

Mesmo durante a ditadura civil militar essa apologia não esteve tão presente. O patriotismo e nacionalismo brasileiro de outrora é diferente do vindouro. Se foi nos anos 60, 70 e 80 que os Centros de Cultura Popular da Une junto da arte de resistência  foram tão importantes para o desenvolvimento cultural do país, lutando contra a repressão,  a violência do estado e a contínua ação da classe média branca e católica, quando e onde foi que a gente acabou ficando na contramão atrapalhando o tráfico?

Talvez no processo de redemocratização quando a cultura e a arte nacional deixaram de ser conceito qualificante e se tornaram  mercadoria a serviço do deus mercado. A criação das leis de incentivo fiscal são o exemplo mais tradicional dessa perspectiva (usa-se uma porcentagem específica do imposto de grandes empresas para realizar produtos culturais. A grande questão posta pelos produtores é o fato de as empresas se utilizarem do próprio imposto para fazerem marketing ou propaganda). Ou quando as leis de incentivo foram deturpadas e entendidas como padronização nacional a favor de uma maioria e não da diversidade e pluralidade (novamente o problema se dá pela forma com que as empresas se posicionam ou escolhem produtos culturais que corroborem com o interesse mercadológico da empresa, temos como exemplo as produções do grupo Globo, em especial a Globo Filmes). Será que algum dia os gestores chegaram a olhar para um censo e perceberam que a representação não  correspondia? Que o reflexo no espelho era outro?

Se hoje os mais de 1700 patrimônios culturais nacionais ainda não refletem a imensidão, pluralidade e diversidade da cultura e arte nacional[2], o que significa retomar a arte heroica e nacional, dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e igualmente imperativa, vinculada as aspirações urgentes do nosso povo.? E a gente que tinha certeza que em 2019 íamos contar a história que a história não conta, e que tinha chego a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.

Talvez, de fato o rock ativou a droga que ativou o sexo que produziu o aborto porque a gente foi levado a crer que a gente não quer só  comida/a gente quer comida/diversão e arte. Ou talvez apesar de você amanhã vai ser outro dia. Mas até  quando a gente vai levando porrada, porrada?/ até quando vai ficar sem fazer nada?

Das lendas que mais gostamos da história nacional é a de país laico, sem racismo e igualitário. Mais uma vez questionamos se o secretário foi exonerado pela fala ou porque mostrou sua real intenção? Se o problema foi o conteúdo, o projeto será extinto? Aparentemente, não teremos respostas tão cedo, afinal a convidada ao cargo, Regina Duarte, compartilha das posições e posturas do governo. Enquanto ser mulher, lgbtq+, negro(a), periférico nesse país for um escárnio, a arte, a cultura e o samba vão continuar morrendo no morro, em Paraisópolis e depois do carnaval. Se lá se morria ao som de Wagner aqui a gente tem sangrado demais, chorado pra cachorro/ ano passado eu morri, mas esse ano….


[1] Odilon Caldeira Neto é professor de historia na Universidade Federal de Juiz de Fora e se dedica aos estudos de grupos integralistas e neointegralistas. Em seus estudos recentes tem enfatizado o aumento de células  neointegralistas no Brasil a partir de 2013.  Tem sido muito requisitado a dar entrevistas em função do ataque a produtora do canal Porta dos Fundos em dezembro de 2019, uma vez que a autoria do ataque foi assumida por um grupo integralista. É possível encontrar suas entrevistas no jornal Estadão e nos podcasts Viracasacas e História FM.

[2] Os patrimônios culturais do Brasil são  divididos em patrimônio imaterial e material. Na primeira categoria estão inseridos os patrimônios reconhecidos como práticas,  modos de fazer, costumes, línguas, entre outros. São patrimônios que dependem diretamente da ação humana e da sua relação com tempo. Já na categoria de material estão inseridos edificações, ruínas, objetos, igrejas, fortificações,  reservas naturais, entre outros, não precisam da ação direta do homem. Apesar dos 1700 itens, foi somente em 1982 que um patrimônio diferente da herança  europeia, colonial e branca foi considerada como parte do que devia ser preservado. Naquele ano, o primeiro terreiro foi patrimonializado na Bahia e dotado, portanto, de proteção federal. Apesar disso, a maior parte do patrimônio  brasileiro ainda reflete um país branco, católico e de herança europeia e colonial. A representação dos povos originários  e africanos são proporcionalmente muito menores e mal preservados do que a herança branca colonial.

*Stella Castanharo é historiadora e mestre em patrimônio cultural e museologia.

** Naiara Krachenski é professora e doutoranda em história contemporânea.

Um comentário em “Enquanto os homens exercem seus podres poderes

  1. Esperançar e acreditar é ter a oportunidade de cada vez mais nos informar, continuem registrando e nos dando voz 👏🏼🙌🏽

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