Retrospectiva linguístico-governamental 2019

*Deni

O Linguística de Boteco surgiu com o intuito de divulgar as análises e discussões sobre a relação entre linguagem/língua e o cotidiano, de modo espontâneo e, por que não, com um certo tom humorístico – daí a prosa embotecada. Revendo o que foi escrito até agora (desde junho deste ano), eu, criadora da criatura e uma das autoras, percebo que a fonte de dados mais recorrente nos meus textos foi o governo federal, na figura dos seus sujeitos emblemáticos, em especial os ministros da educação e do meio ambiente (uma vez que as políticas das pastas que ocupam são as que mais me preocupam). Também, pudera! Durante todo este ano, tivemos que lidar com uma enxurrada de declarações diárias, das mais preocupantes – dada as medidas que anunciavam – às mais estapafúrdias. As previsões para o ano que vem não são melhores nesse sentido. Nem adianta pular 7 ondas – perigo, ainda, encontrar óleo vazado. Isso quer dizer que nós linguistas corremos mais riscos de não termos emprego por causa da política educacional deste governo, do que pela quantidade de material e fonte de pesquisa.

            Bom, diante disso e nessa onda de final de ano, longe do “hoje é um novo dia de um novo tempo que começou”, faço aqui uma retrospectiva de algumas declarações governamentais que nos atravessaram em 2019. Para tanto, divido em três grupos discursivos:

1. declarações que explicitamente expõem o projeto autoritário do governo, que flerta com a ditadura e com a censura;

2. declarações que parecem absurdas, mas que, na verdade, se articulam com o projeto autoritário do governo e com o projeto econômico, que se aproveita do autoritarismo para favorecimento de apenas alguns grupos; um adendo: várias dessas declarações afrontam os anos dedicados à pesquisa e produção de conhecimento científico.

3. declarações de fato absurdas, mas não só pelo conteúdo como também pela falta de clareza, a ponto de fazer os semanticistas desistirem de atribuir significado, os pragmaticistas tentarem procurar a relevância, os sintaticistas julgarem a agramaticalidade, os foneticistas dizerem que nem a prosódia salva, os linguistas do texto desacreditarem da coerência, os analistas do discurso se perderem na taxonomia ideológica, e, sobretudo, faz todos linguistas encaminharem, com caráter de urgência, um projeto interdisciplinar com o pessoal da psicanálise (os não linguistas me perdoem a piada interna! pensando bem… os linguistas também!).

            Vamos então aos discursos selecionados. Sei que é difícil, mas peço que os leitores me acompanhem com persistência. É também pelo bem da ciência (literal e metaforicamente).

            Divido cada grupo de declarações em temáticas.

1. declarações que explicitamente expõem o projeto autoritário do governo, que flerta com a ditadura e com a censura

a) exaltação à ditadura militar brasileira e uso de referências ao regime militar como ameaças:

Em discurso na ONU, Bolsonaro se refere ao regime militar brasileiro como uma vitória sobre a ameaça comunista, reiterando a falácia dos “agentes cubanos”:

“A história nos mostra que, já nos anos 60, agentes cubanos foram enviados a diversos países para colaborar com a implementação de ditaduras. Há poucas décadas tentaram mudar o regime brasileiro e de outros países da América Latina. Foram derrotados! Civis e militares brasileiros foram mortos e outros tantos tiveram suas reputações destruídas, mas vencemos aquela guerra e resguardamos nossa liberdade.”[1]

O deputado Eduardo Bolsonaro usa o AI5 como uma ameaça, caso haja o que ele chamou de “radicalização da esquerda”:

“Se esquerda radicalizar, um novo AI-5 pode ser feito.”[2]

Paulo Guedes, ministro da economia, reforça a ameaça como AI5:

“Não se assustem se alguém pedir o AI5.[3]

b) defesa e implementação da censura a produções culturais brasileiras:

 Diante das revelações de que a Caixa Cultural havia estabelecido um sistema de censura a projetos culturais, Bolsonaro redefine a censura como respeito a valores cristãos:

 “Isso não é censura, isso é preservar os valores cristãos, é tratar com respeito a nossa juventude, reconhecer a família”.[4]

Sobre a Agência Nacional do Cinema (ANCINE), Bolsonaro ameaçou:

“Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a ANCINE.”[5]

c) favorecimento de um grupo religioso em detrimento à pluralidade de ensino e de religião:

O ministro da educação, Abraham Weintraub, critica a palavra educação e defende o uso da palavra ensino:

quem educa é a família. A gente ensina”. “Ensina a ler, ensina um ofício[6]

Vale aqui comentar que, com essa declaração, o ministro:  passa por cima de tudo que se fez na academia e nas escolas para se definir educação, desconsiderando também os estudos em curso que buscam aprimorar a definição, desenvolver modelos educacionais melhores, definir os conteúdos e as práticas conforme as necessidade dos alunos, e etc.; e, ao atribuir apenas à família o papel de educar, o ministro desvaloriza o profissional da educação e elege o conhecimento que circula no âmbito familiar como o único válido para educar.[7]

Bolsonaro, sobre a nomeação de dois ministros do STF prevista para o seu mandato, declarou:

“um deles será terrivelmente evangélico”[8]

            Essa declaração do presidente é eco da fala da ministra Damares Alves,

O estado é laico mas esta ministra é terrivelmente cristã.[9]

2. declarações que parecem absurdas, mas que, na verdade, se articulam com o projeto autoritário do governo e com o projeto econômico, que se aproveita do autoritarismo para favorecimento de apenas alguns grupos:

a) justificativa para uma política econômica em desacordo com a realidade do país:

            Paulo Guedes, em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo:

Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo.[10]

Esta é uma entre várias declarações do ministro com as quais ele se esquiva da posição de agente de políticas econômicas que aumentam a desigualdade.  

b) Acusações sem provas e informações infundadas que sustentam uma política ambiental desastrosa e violenta, que é contrária à pesquisa científica desenvolvida na área por Institutos e Universidades Públicas e que trata com descaso moradores de regiões afetadas por crimes e desastres ambientais:

O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, sugere que o Greenpeace estaria por trás do vazamento de óleo no litoral nordestino:

Tem umas coincidências na vida né… Parece que o navio do #greenpixe estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano…[11]

Também sobre o vazamento de óleo, em uma transmissão ao vivo nas redes sociais do presidente da República, o secretário da Pesca disse que os peixes são inteligentes, assim desviam das manchas de óleo:

“Pessoal, nós já fizemos inúmeros testes, [não tem] nenhum peixe contaminado. Podem consumir pescado. Lembrando que o peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente, você pode consumir seu peixinho sem problema algum.[12]

Após a divulgação dos dados que revelavam o aumento do desmatamento na Amazônia, Bolsonaro acusa o diretor do INPE de estar a serviço de ONGs:

Isso que acontece de muitas divulgações, por exemplo, como a de ontem, do Inpe, é uma cópia de anos anteriores. Até mandei ver quem é o cara que está na frente do Inpe. Ele vai ter que vir se explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram pra imprensa do mundo todo, que pelo nosso sentimento não condiz com a verdade. Até parece que ele está à serviço de alguma ONG, que é muito comum”[13]

c) Acusações sem provas e informações infundadas que sustentam uma política educacional de desmonte das Universidades Federais e, consequentemente, da produção científica e tecnológica:

É inesquecível a justificativa do ministro da educação para o bloqueio de verbas de Universidades e Institutos Federais:

Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas[14]

Como balbúrdia, o ministro caracterizou:

“sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus”[15]

Em entrevista outra ao jornal Estado de S. Paulo, o ministro reiterou a balbúrdia e acrescentou que nas Universidades existe cracolândia

As universidades são caras e têm muito desperdício com coisas que não têm nada a ver com produção científica e educação. Têm a ver com politicagem, ideologização e balbúrdia. Vamos dar uma volta em alguns câmpus por aí? Tem cracolândia. Estamos em situação fiscal difícil e onde tiver balbúrdia vamos pra cima”[16]

Em entrevista para o jornal da Cidade Online, Weintraub acusa as Universidades de terem plantações de maconha. O ministro repete a acusação na comissão da Câmara dos Deputados a que foi convocado para prestar esclarecimentos:

Você tem plantações de maconha, mas não são três pés de maconha, são plantações extensivas de algumas universidades, a ponto de ter borrifador de agrotóxico. Porque orgânico é bom contra a soja para não ter agroindústria no Brasil, mas na maconha deles eles querem toda tecnologia a disposição.[17]

Sobre a associação entre Universidade e maconha, cabe um comentário extra: enquanto o ministro utiliza a imagem negativa, conservadora, do “maconheiro” para desmoralizar, diante da opinião pública, essas instituições, há milhares de pessoas no país que precisam de tratamentos de saúde a base de maconha. A imagem negativa da maconha que o ministro ajuda a propagar não só funciona como um freio para a liberação da produção para pesquisa científica, com fins medicinais, mas também como uma barreira para pacientes que dependem da maconha busquem mais informações sobre o tratamento sem medo de julgamentos morais levianos e retaliações violentas.

Osmar Terra, ministro da cidadania, segue esse viés propositalmente desinformado para se posicionar contra a liberação do cultivo da maconha para fins medicinais e de pesquisa:

Se abrir as portas do plantio, vai ter consumo generalizado[18]

3. declarações de fato absurdas (dispensam comentários!)

O novo presidente da Funarte, Dante Mantovani:

O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. E a indústria do aborto alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo. O próprio John Lennon disse abertamente, mais de uma vez, que fez um pacto com o satanás.”[19]

Damares Alves, Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (não podia faltar, né):

Ao comentar o alto índice de estupro na Ilha de Marajó (Pará):

Especialistas chegaram a falar para nós que as meninas lá são exploradas porque elas não têm calcinhas, elas não usam calcinha porque são pobres[20]

Em entrevista à BBC:

Hoje é moda a menina de 12 anos dizer que ela é bissexual. Hoje, existe uma pressão no grupo que a menina tem que assumir que ela é bissexual. E às vezes essa menina não é. E essa menina tem conflito depois. Temos muitos estudos científicos e até te recomendo, de que a pressão social de a pessoa se declarar bissexual cada vez mais cedo. Pergunte numa sala no Brasil quantas coleguinhas conhecem outras que são bissexuais? Elas vão dizer: quase todas.[21]

E, claro, como gosta a Análise do Discurso, não poderiam faltar na análise os silêncios, os não-ditos. Este é, digamos, um tanto peculiar:

No dia 25/11, dia internacional do combate à violência contra a mulher, a ministra, durante uma coletiva de imprensa, ficou em silêncio.[22]

           Evidentemente, essa lista não esgota as declarações polêmicas vindas dos agentes do governo federal. Se eu tentasse, este texto não teria fim. Deixei de fora, por exemplo, as ofensas proferidas pelo presidente Bolsonaro, entre tantas outras: ao presidente da OAB, à Michelle Bachelet, à Greta Thunberg. Enquanto escrevo este texto, ele acaba de chamar Paulo Freire de energúmeno. Difícil de acompanhar. E nada saudável, diga-se de passagem.

            Mas a questão maior para nós linguistas e (me permitam a extensão) para todos que trabalham com as Ciências Humanas é compreender que esses discursos não são o “falar por falar”, o “só pra causar polêmica”, o “alvoroço proposital nas redes sociais”. Podem até ser um pouco. Mas, muito mais do que isso, esses discursos carregam os traços de um projeto político autoritário. Por isso, não podem ser tratados de modo leviano, não podem ser esquecidos, mas sim devem ser explicados, lembrados e identificados, para que possamos nos contrapor e, sobretudo, abrir o diálogo com quem, por algum motivo acredita neles ou não os leva a sério. É a democracia que está em jogo. É o ensino público, é a saúde pública, o meio ambiente que estão em jogo.

        Tá! Talvez, por uma questão de manutenção da sanidade do pesquisador, podemos nos poupar de analisar os absurdos estapafúrdicos como a declaração do presidente da Funarte. Tudo bem. Se bem que os gerativistas têm aí um belo exemplo (em estrutura, somente, não custa frisar!) de recursividade: O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto.

           É o que deixo, enfim, nas mesas dos botecos dos linguistas neste ano. Quem tiver mais exemplo de declarações que se encaixam nessas discussões pode deixar nos comentários do blog. São inúmeras! Mas quanto mais mostrarmos o quão preocupantes e/ou absurdas são, melhor.

          Longe do tom espontâneo e humorístico, termino com uma declaração que se encaixa nos três grupos elencados, que é preocupante e estapafúrdia ao mesmo tempo:

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não.”[23] (Jair Bolsonaro, presidente da República)

*Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudos Linguísticos na UFPR.


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/24/politica/1569340250_255091.html

[2] https://www.cartacapital.com.br/politica/se-esquerda-se-radicalizar-um-novo-ai-5-pode-ser-feito-diz-eduardo-bolsonaro/?fbclid=IwAR2N4X_-MvovlnoG_f4AlfMGV8gsKBKdU7XEMAlpUp5k5arSe5oEg3-Cai4

[3] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/11/nao-se-assustem-se-alguem-pedir-o-ai-5-diz-guedes.shtml

[4] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/bolsonaro-nega-praticar-censura-mas-defende-valores-cristaos-na-cultura.shtml

[5] https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml

[6] https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/09/26/ministro-da-educacao-critica-a-palavra-educacao-quem-educa-e-familia.htm

[7] Comentário que fiz em um texto anterior, neste blog: https://linguisticadeboteco.home.blog/2019/10/17/nao-era-amor-era-cilada/

[8] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/10/politica/1562786946_406680.html

[9] https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,o-estado-e-laico-mas-esta-ministra-e-terrivelmente-crista-diz-damares-alves,70002664861

[10] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/11/da-para-esperar-4-anos-de-um-liberal-democrata-apos-30-de-centro-esquerda-diz-guedes.shtml

Análise: https://nesp.pucminas.br/index.php/2019/11/05/paulo-guedes-o-ultraliberal-das-reformas-que-aumentam-a-desigualdade/

[11] https://veja.abril.com.br/politica/salles-insinua-que-greenpeace-e-responsavel-por-oleo-no-nordeste/

[12] https://www.cartacapital.com.br/sustentabilidade/o-peixe-e-inteligente-ele-tem-medo-do-oleo-diz-secretario-de-pesca/

[13] https://www.oeco.org.br/blogs/salada-verde/bolsonaro-diz-que-diretor-do-inpe-pode-estar-a-servico-de-alguma-ong/

https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-acusa-inpe-de-divulgar-dados-mentirosos-sobre-desmatamento,70002929326

[14] https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,mec-cortara-verba-de-universidade-por-balburdia-e-ja-mira-unb-uff-e-ufba,70002809579

[15] Idem.

[16] https://www.cartacapital.com.br/educacao/abraham-weintraub-diz-que-universidades-federais-tem-cracolandia/

[17] https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/11/22/weintraub-ha-plantacoes-extensivas-de-maconha-em-universidades-federais.htm

[18] https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/07/10/ministro-osmar-terra-diz-que-liberacao-da-maconha-para-fins-medicinais-abre-portas-para-consumo-generalizado.ghtml

[19]https://www.jb.com.br/cadernob/2019/12/1020628-rock-incentiva-industria-do-aborto–drogas-e-satanismo–diz-novo-presidente-da-funarte.html

[20] https://www.cartacapital.com.br/politica/damares-justifica-abuso-de-meninas-por-falta-de-calcinhas/

[21] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48479429

[22] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/11/damares-convoca-entrevista-fica-em-silencio-e-depois-diz-que-foi-encenacao.shtml

[23] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/19/politica/1563547685_513257.html

O blog informa que a autora passa bem. Porém, por motivos de força menor, se dá o direito de não escrever mais neste ano.

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