O Se X, então Y do Condicionador às Avessas

Deni*

Uma estrutura linguística muito comum por aí é a Se X, então Y, que transita perfeitamente entre a lógica e a argumentação, passa (não tão precisamente) pela previsão do tempo se virar o vento, chove, entra nas marchinhas de carnaval se a canoa não virar olê olê olá, eu chego lá, e chega, é claro, no ambiente doméstico, com as prescrições do tipo se não comer o brócolis, não ganha sobremesa.

            Pela lógica, entendemos que, por conta da estrutura, X vira uma condição para que Y aconteça; além do que a veracidade ou falsidade de uma das proposições altera a veracidade de toda a sentença. Vamos entender isso com o exemplo do brócolis. Imaginamos que, no almoço familiar, o pai fala para o filho: se não comer o brócolis, não ganha sobremesa. Disso, podem surgir quatro situações: 1. a criança comer o brócolis e ganhar a sobremesa – o que dá credibilidade à autoridade paterna e garante a harmonia familiar; 2. a criança não comer o brócolis e não ganhar a sobremesa – o que também dá credibilidade à autoridade paterna e caracteriza a rebeldia doméstica saudável; 3. a criança comer o brócolis e não ganhar a sobremesa; e 4. a criança não comer o brócolis e ganhar a sobremesa. Diante dessas duas últimas situações a criança pode se sentir um tanto confusa e o pai um tanto desacreditado por se contradizer e por mimar o filho, respectivamente.

            Na argumentação, a estrutura em questão se transforma em um argumento de causa e consequência. Por exemplo, em 2017, o governo Michel Temer colocou a Reforma Trabalhista como condição para geração de empregos. Em outras palavras, a redução do desemprego seria a consequência da aprovação da reforma. Criou-se, assim, um argumento a favor da aprovação. Hoje, praticamente dois anos depois dessa reforma, não houve redução do desemprego.[1] Voltando para a lógica, a falsidade de Y invalidou a sentença inteira.

            A condição, portanto, veiculada na estrutura Se X, então Y  pode ser verificada ou não no mundo. O problema é quando ela é proferida como condição absoluta e se acomoda em discursos cujo tom é ameaçador. Um exemplo recente veio do deputado federal Eduardo Bolsonaro, que declarou em um programa de entrevistas: “Se esquerda radicalizar, um novo AI-5 pode ser feito”[2]. Seja pelo efeito de agradar eleitores ou de intimidar opositores, o deputado coloca uma possível radicalização da esquerda como causa para a instituição de um governo autoritário, repressor, simbolizado aqui pela referência ao AI-5 (o Ato Institucional mais violento da ditadura militar brasileira, instituído em 1968, que caçou mandatos políticos e suspendeu garantias constitucionais da população brasileira, instaurando um clima de medo, perda de liberdades e repressão)[3]. Entretanto, um deputado eleito democraticamente não pode ameaçar as instituições democráticas, devendo assim sofrer algum tipo de punição por um Comitê de Ética[4]. Esse desvio de conduta, porém, é encoberto pelo tom ameaçador e pela causa atribuída (que é inventada) – a repressão seria consequência direta da radicalização da esquerda. Na verdade, quando checamos as informações no mundo, o autoritarismo na declaração parece ser mais uma obsessão de quem só aprendeu a dizer Se X, então Y, e não a ouvir. Em outras palavras, o filho só ganhava sobremesa, sem ter que comer brócolis.

            A linguística ainda não comprovou que existe algum condicionamento genético que faça com que estruturas linguísticas específicas passem de pai para filho. Coincidência ou não, o pai do Eduardo Bolsonaro também usa com frequência a estrutura Se X, então Y ao exercer cargo que ocupa. Por exemplo, ao questionar a gestão da Agência Nacional de Cinema (ANCINE), Bolsonaro afirma que a agência será mantida “se o pessoal se adequar ao que nós queremos”[5]. Esse “se adequar ao que nós queremos” é o controle de conteúdo das produções cinematográficas, o tal “filtro ideológico” defendido pelo presidente. Ou seja, censura. De novo, a relação de causa e consequência, mais o tom ameaçador, se sobrepõe, no discurso, a algo que, constitucionalmente, não pode ser defendido por um representante eleito democraticamente, nesse caso, a censura.

            É possível percebermos que a relação entre X e Y não é absolutamente clara. Comparem brócolis e sobremesa. A criança vai ser muito mais convencida pelo tom, pela expressão, do pai e pela estrutura linguística utilizada (se x então y) do que pela relação direta entre os alimentos. Na argumentação, a confusão pode ser proposital. Foi o caso da Reforma Trabalhista. E, no governo atual, é o caso da Reforma da Previdência. Um exemplo foi quando o Ministro da Educação, Weintraub, condicionou a liberação da verba das Universidades e Institutos Federais, que ele havia cortado, à aprovação da Reforma da Previdência: “Se a economia tiver um crescimento com aprovação da nova Previdência, se retomarmos a dinâmica de arrecadação, revertemos.”[6] A economia prevista pela reforma (não vou entrar no mérito da questão aqui, mas há uma primeira questão a se fazer Economia pra quem?, e não há nenhum mérito) é a longo prazo, e o MEC já teve que devolver a verba às instituições. Logo, na ocasião da fala do ministro, a relação direta entre a reforma e a verba das Universidades era falsa.

            Estamos diante, portanto, de muitas condições criadas, mas poucas delas são verificadas no mundo. O governo atual, seguindo uma lógica que extrapola o ambiente doméstico, vira um condicionador às avessas: aquele que ao invés de desembaraçar as informações visando ao esclarecimento, faz mais nós para causar a confusão que serve ao discurso autoritário.

            Para terminar, voltamos a uma condição proferida ainda no ano passado. Após eleito, em encontro com membros do seu partido, o presidente declarou: “Se eu afundar, não é vocês não, é o Brasil todo que vai afundar junto.”[7] Hoje, nesse quase um ano de governo, podemos observar que o Brasil não está afundando ainda, mas Se está sendo queimado, envenenado, vendido, banhado em óleo, censurado… então é por que… Enfim, talvez seja hora da canoa virar.


[1] https://economia.uol.com.br/reportagens-especiais/apos-um-ano-reforma-trabalhista-nao-criou-empregos-prometidos-e-informalidade-cresceu#tematico-1

http://www.justificando.com/2019/03/20/geracao-de-empregos-e-reforma-trabalhista-uma-conta-q-nao-fecha/

[2] https://www.cartacapital.com.br/politica/se-esquerda-se-radicalizar-um-novo-ai-5-pode-ser-feito-diz-eduardo-bolsonaro/?fbclid=IwAR2N4X_-MvovlnoG_f4AlfMGV8gsKBKdU7XEMAlpUp5k5arSe5oEg3-Cai4

[3] https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/Ningu%C3%A9m-%C3%A9-imune-para-sempre?fbclid=IwAR3OqadmBDmA6wDrNj9Y1Avn_WaQ0hCOhMZuyzdzJ7RQz8EGe1uz0mNWjtc

[4] Idem.

[5] https://oglobo.globo.com/cultura/bolsonaro-sobre-ancine-se-pessoal-se-adequar-da-para-mante-la-23877823

[6] https://www.cartacapital.com.br/educacao/weintraub-diz-que-pode-rever-corte-nas-universidades-se-previdencia-passar/

[7] https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/11/21/jair-bolsonaro-diz-que-se-ele-afundar-o-brasil-afunda-junto.ghtml

Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudos Linguísticos na UFPR.

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