Não era amor, era cilada

Deni*

Pessoas experientes nessa coisa de boteco logo reconhecem no título o refrão de um pagodão dos anos 90, geralmente recuperado – em letra e em conteúdo – nas mesas, após uns copos (garanto que leram cantando! a propósito, o fato de podermos ler cantando daria outro texto). Linguistas experientes nessa coisa de boteco, além de reconhecerem a música, vão se preocupar com a proposta de redefinição que o título sugere categoricamente. Assim, sensíveis à linguagem e à situação do eu-lírico, a questão posta na mesa é: o que faz amor virar cilada?

            O significado de um termo envolve uma ideia de determinado objeto no mundo compartilhada pelos falantes. Quando ouvimos a palavra floresta, por exemplo, associamos a ela uma “imagem” de um conjunto de árvores em uma significativa extensão territorial. Ninguém usa o termo floresta para se referir ao seu quintal ou à região central de uma cidade (claro, não estou considerando aqui figuras, como metáforas, exageros, etc.).

            Bem, uma coisa é a ideia que os falantes têm de determinado objeto no mundo, a referência, outra coisa são as definições que um termo ganha conforme o uso. Voltando para a floresta: todos falantes de português brasileiro têm a mesma referência de floresta, porém há os que consideram como algo essencial para a sobrevivência da espécie humana e que, portanto, deve ser preservada, por outro lado há os que consideram como algo que impede o crescimento da produção agropecuária nacional, então deve ser desmatada.

            No jogo argumentativo, a definição ganha o caráter de tese. Se eu defendo a preservação das florestas, devo dar argumentos que sustentem essa posição; do mesmo modo, se eu defendo o desmatamento. No trabalho científico, as definições constroem um conceito. Os biólogos, por exemplo, definem floresta com base em observações empíricas e discussões teóricas.

            Nas ciências humanas, temos o conceito de ditadura. É consenso entre historiadores que passamos no Brasil por um regime ditatorial, que tem início com o golpe militar de 1964. Esse período é marcado pela censura, perseguição política e violação de direitos humanos – características que definem ditaduras. Porém, há os que insistem em dizer que não houve ditadura no país, sem argumentos convincentes dentro da área em que o conceito foi elaborado, as ciências humanas. Negar a definição desse conceito e seu uso na explicação de um período governamental da história do Brasil é negar um fato histórico, comprovado por historiadores por meio da análise de fontes, como documentos, testemunhos, entre outras.[1]

            A negação de conceitos é recorrente no discurso de representantes do governo federal. Recentemente, o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, encasquetou com a palavra educação.[2] Segundo ele, a palavra ideal seria ensino, já que quem educa é a família. Entretanto, longe de ser um encasquetamento ingênuo, essa implicância do ministro com o termo tem graves implicações: 1. passa por cima de tudo que se fez na academia e nas escolas para se definir educação, desconsiderando também os estudos em curso que buscam aprimorar a definição, desenvolver modelos educacionais melhores, definir os conteúdos e as práticas conforme as necessidade dos alunos, e etc.; 2. ao atribuir apenas à família o papel de educar, o ministro desvaloriza o profissional da educação e elege o conhecimento que circula no âmbito familiar como o único válido para educar.

            O presidente da república, por sua vez, negou a definição de censura. Diante das revelações de que a Caixa Cultural havia estabelecido um sistema de censura a projetos culturais, Bolsonaro disse que: “Isso não é censura, isso é preservar os valores cristãos, é tratar com respeito a nossa juventude, reconhecer a família”.[3] Nesse mesmo discurso, o presidente defende mudanças na Funarte e na Ancine, agência que, em falas anteriores, ele disse que deveria ter um “filtro de conteúdo”. Ora, filtrar conteúdo e sobrepor um ponto de vista, nesse caso o religioso, no processo de fomento a produções culturais é, sim, censura. Tanto Bolsonaro quanto Weintraub, ao mexerem nas definições de censura e de educação, estão se dirigindo a um mesmo grupo de pessoas: os que se encaixam na definição única de família evocada em seus discursos. Voltando à noção de referência: a “imagem” de família que eles têm é a composta por pai, mãe e filhos, que segue os valores cristãos. Entretanto, na população brasileira encontramos configurações familiares e segmentos religiosos diversos. A referência aqui é outra.

            E nessa confusão toda de definições, podemos mesmo questionar o que o presidente considera como cristão. Um dos princípios do cristianismo é o tal do “Amai-vos uns aos outros”. Para quem nasceu depois que o “vos” saiu do nosso vocabulário, quer dizer: todo mundo tem que amar todo mundo. Ora, quando se exclui parte da população, quando se censura manifestações artísticas e se ofende artistas, quando se tem ódio ao que é diferente não é amor… é cilada!


[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/30/politica/1553984610_147330.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/26/opinion/1553638697_638185.html

[2] https://educacao.uol.com.br/noticias/2019/09/26/ministro-da-educacao-critica-a-palavra-educacao-quem-educa-e-familia.htm

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/09/voces-tem-que-se-virar-diz-weintraub-a-dirigentes-de-universidades-privadas.shtml

[3] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/10/bolsonaro-nega-praticar-censura-mas-defende-valores-cristaos-na-cultura.shtml

https://oglobo.globo.com/cultura/bolsonaro-diz-que-veto-obras-culturais-nao-censura-mas-sim-preservar-valores-cristaos-23998872

Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudos Linguísticos pela UFPR

Um comentário em “Não era amor, era cilada

  1. Muito bom!!! Pluralidade 🤩 parecem não conhecer a dimensão do nosso país 🙌🏽

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