O pressuposto do “diz que” governamental

Deni *

A análise do significado, no limite de uma sentença, lida com a noção de pressuposição. Algumas sentenças precisam de uma informação dada como verdadeira, como certa, para a garantia de sua interpretação. Se alguém diz, por exemplo, João terminou a graduação de Letras, a informação pressuposta, dada como certa, é que João era aluno da graduação de Letras. Tanto é que se negarmos a pressuposição, a sentença fica esquisita: João terminou a graduação de Letras, mas não é verdade que João era aluno da graduação de Letras. Outro exemplo é quando alguém fala  Nasceu o bebê da Maria, o pressuposto é que Maria estava grávida; falar Nasceu o bebê da Maria, mas ela não estava grávida fica um tanto improvável (pra medicina, ao menos). Seguindo esse raciocínio de análise, podemos observar que existem verbos que, inevitavelmente, “exigem” a veracidade da informação pressuposta; é o caso de terminar (como no primeiro exemplo), saber, parar, entre outros. Comparemos duas sentenças:

a) O governo federal sabe que o desmatamento aumentou.

b) O governo federal disse que o desmatamento aumentou.

Para a compreensão de (a), o aumento do desmatamento é um fato. Se o negarmos, O governo federal sabe que o desmatamento aumento, mas não é verdade que o desmatamento aumento, a interpretação fica comprometida. Isso, porém, não ocorre com (b), cuja negação da informação que se segue ao disse que é possível: O governo federal disse que o desmatamento aumentou, mas não é verdade que o desmatamento aumentou. Uma sentença com dizer que, portanto, não depende de uma informação verdadeira para ser interpretada. Tanto é que em vários casos atribuímos a alguém o “dizer”, quando não queremos nos comprometemos com a veracidade do que foi “dito”; bem ou mal, é o discurso indireto usado na imprensa. A veracidade da informação precisa, então, ser checada: dito com base em quê?

            São verbos como dizer e similares, em sentenças como (b), que estão me chamando a atenção por conta da sua crescente circulação na imprensa e do conteúdo que está sendo dito. Neste texto, então, pretendo analisar alguns “dizeres” que estão circulando por aí. Porém, parto da pergunta: será que não tem mesmo um pressuposto?

            Para iniciar, já de modo a expor a dimensão discursiva do problema, começo com dois momentos em que o que foi dito não é verdadeiro:

1) “Bolsonaro diz que não falou ‘nada de mais’ sobre morte de Fernando Santa Cruz.”[1]

2)”Presidente responde com feroz ataque pessoal às críticas da alta comissária da ONU e diz que, se não fosse a ‘ditadura derrotar a esquerda, entre eles seu pai, Chile seria uma Cuba‘.”[2]

Ambas as falas foram proferidas em contextos parecidos: discurso ofensivo a filhos de duas vítimas de ditaduras militares. A primeira trata-se de uma resposta com a qual o presidente Bolsonaro tenta justificar a sua afirmação de que o pai do presidente da OAB “foi morto pelo ‘grupo terrorista’ Ação Popular do Rio de Janeiro, e não pelos militares.”[3] Há, aqui, dois problemas: i. a afirmação é falsa (há documentos que comprovam que foi o Estado que matou, como consta na reportagem referenciada em nota); ii. dizer que “não falou nada de mais” é aceitar a própria informação mentirosa para construir uma agressão. Do mesmo modo, em (2), que reporta o que Bolsonaro disse à Bachelet, há uma informação falsa de que o Chile seria uma Cuba, não fosse o regime ditatorial, como também há uma ofensa na informação subentendida “que bom que seu pai foi morto pela ditadura”.

            Nos dois casos, portanto, o que foi dito, além de não ser verdade, é absolutamente ofensivo. Parece uma estratégia do presidente para rebater críticas ao seu governo: não comenta o fato criticado, mas, sim, ofende o autor da crítica.

            Diante de declarações como essas, há quem considere que o presidente fala o que pensa e por vezes exagera, ou que crie polêmicas desse tipo para desviar a atenção da população de questões mais importantes para o país (como se o não reconhecimento das atrocidades cometidas pelos regimes militares não fosse um problema grave). Entretanto, quando analisamos medidas tomadas por alguns de seus ministros, percebemos que o “dizer que” está na introdução das principais justificativas. Trago aqui dois casos: as ações do ministro do Meio Ambiente diante dos dados sobre o aumento do desmatamento da Amazônia e as medidas do Ministro da Educação com relação às Universidades Federais.

            Da ocasião da divulgação dos dados do INPE que mostravam o aumento do desmatamento na Amazônia neste ano, destaco dois ditos:

3) “O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou o dia no Congresso para falar sobre os números do desmatamento da Amazônia. E exatamente num dia em que foram divulgados os números do mês de julho, ele disse que as notícias sobre o assunto são sensacionalistas.[4]

4) “Na última sexta-feira (19), durante entrevista à imprensa estrangeira, Bolsonaro questionou dados divulgados pelo Inpe sobre o aumento do desmatamento na Amazônia e disse suspeitar que o diretor do órgão está ‘a serviço de alguma ONG’.”[5]

Como observamos, as informações introduzidas pelo “dizer” podem ser negadas: ele disse que as notícias sobre o assunto são sensacionalistas, mas não é verdade que as notícias são sensacionalistas; disse suspeitar que o diretor do órgão está “a serviço de alguma ONG”, mas não é verdade que o diretor está a serviço de alguma ONG. Saindo do limite da análise formal da sentença, a veracidade das informações pode ser verificada na análise dos dados divulgados pelo INPE e no currículo do diretor, Ricardo Galvão. Uma acusação dessas, de que o diretor estaria favorecendo outra instituição que não aquela em que prestava serviço como servidor público é muito grave; apesar disso, foi feita pelo presidente de modo inconsequente. O fim da história, como todos sabem, foi a exoneração do diretor e um edital para a contratação de uma empresa privada para elaboração de dados sobre o desmatamento, a pedidos do Ricardo Salles. O jogo de “disse que” do ministro do Meio Ambiente e do presidente da República, a ponto de desqualificar o trabalho do INPE, cuja metodologia de produção de dados é referência internacional, está na base da política ambiental do país. Tanto é que os falsos ditos não pararam por aí: na conferência da ONU, Bolsonaro disse que a Amazônia “permanece praticamente intacta”[6]. Mas não é verdade que a Amazônia permanece praticamente intacta.

            Outro ministro com postura semelhante é o da Educação, Abraham Weintraub, que ao justificar cortes e um novo programa para o orçamento das Universidades só diz e não comprova nada:

5) “Abraham Weintraub diz que universidades federais ‘têm cracolândia.’”[7]

6) “Future-se não vai interferir na autonomia das universidades, diz ministro.”[8]   

As justificativas do ministro vão das mais absurdas, como a da cracolândia (5), da balbúrdia e das pessoas peladas nos campus[9], até as que demandam um pouco mais de esforço do interlocutor para verificar. No caso de (6), o Future-se propõe as OSs para administração das Universidades, o que já é uma interferência na autonomia. Mas em todas essas justificativas há um ponto em comum: o que é dito é falso.

            Bolsonaro, Salles e Weintraub, assim, no jogo dos “diz que” são os próprios causadores de tumultos dentro das instituições públicas que gerenciam. Um leitor de reportagens mais atento percebe que depois dessas declarações, eles geralmente tentam minimizar a situação e encaixar suas propostas como a melhor solução para o próprio tumulto que causaram. É uma postura que se enquadra, em certa medida, no que Eliane Brum conceitua como antipresidente. Bolsonaro é antipresidente ao manter um “estado de guerra” dentro do seu próprio governo.[10] Ao meu ver, pela linguagem, seus ministros têm a mesma postura.

            Não é difícil verificar a veracidade das informações ditas pelo presidente do Brasil e seus ministros, basta consultar as instituições de pesquisa, visitar uma Universidade e acessar seus canais diretos de comunicação, consultar o currículo de professores e pesquisadores para ter noção da produtividade (essas informações são públicas) e ler livros e artigos (científicos ou de divulgação) de historiadores, sociólogos, antropólogos, geógrafos, biólogos… Mas é trabalhoso. E muito! Haja vista a quantidade e velocidade com que falsas informações circulam.

            E diante de tantos ditos a serem verificados, as pessoas que dependem diretamente das instituições públicas têm que alterar sua forma de trabalho em uma situação diariamente incerta. Em outras palavras, não se sabe em que informação, em qual argumento, vindo do governo federal elas podem se basear para a tomada de decisões e elaboração de reações. Um exemplo são os pesquisadores que, nas últimas semanas, receberam a informação de que não teriam bolsa, depois que as bolsas voltariam, e depois que voltariam só algumas e para programas de pesquisa específicos, e depois e depois… Tudo isso permeado pelos “diz que” como justificativa.

            Da análise feita até aqui, portanto, podemos entender que um único pressuposto guia, no governo brasileiro, a interpretação das sentenças: é possível verificar a falsidade de praticamente todas as informações que o presidente e seus ministros “dizem que”.


[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/08/02/bolsonaro-diz-que-nao-falou-nada-de-mais-sobre-morte-de-fernando-santa-cruz.ghtml

[2] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/04/politica/1567617364_180672.html

[3] https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/29/bolsonaro-diz-que-pai-do-presidente-da-oab-foi-morto-por-grupo-terrorista-comissao-da-verdade-culpou-agentes-da-ditadura.ghtml

[4] https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/08/07/ministro-do-meio-ambiente-afirma-que-numeros-do-desmatamento-sao-sensacionalistas.ghtml

[5] https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/21/bolsonaro-diz-que-divulgacao-de-dados-sobre-desmatamento-prejudica-o-brasil.ghtml

[6] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/24/politica/1569323723_562966.html

[7] https://www.cartacapital.com.br/educacao/abraham-weintraub-diz-que-universidades-federais-tem-cracolandia/  E o link da entrevista completa: https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,mec-vai-exigir-contratacao-de-professor-sem-concurso-para-universidade-que-aderir-ao-future-se,70003020974?utm_source=facebook%3Anewsfeed&utm_medium=social-organic&utm_campaign=redes-sociais%3A092019%3Ae&utm_content=%3A%3A%3A&utm_term&fbclid=IwAR3iSzb1dv5eAhiBO9KHv6cBXCXIDig_o7XQFsPSPNz66yB4lBVWnIYXYfQ

[8] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2019/08/28/weintraub-future-se-nao-vai-interferir-na-autonomia-das-universidades.htm

[9] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/31/politica/1559334689_188552.html

[10] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/10/opinion/1554907780_837463.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/27/opinion/1553688411_058227.html

*Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudos Linguísticos na UFPR.

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