Dois velhos tipos de ciência

Fabio Mesquita*

Parece que desconfiar da ciência está na moda agora, mas não sei direito se as pessoas estão deixando de acreditar ou se os detratores do pensamento científico que sempre existiram andam fazendo mais barulho que o normal. De qualquer maneira, eu, que sou um defensor entusiasmado da ciência, confesso que às vezes não sei direito definir o que ela é, e aí parece que fica mais difícil defender.

            Até que existem muitas definições de ciência por aí, mas como trazê-las ao debate público? Basta contrapor o pensamento dos cientistas ao pensamento místico/religioso, é isso? Duvidar primeiro, antes de acreditar? Defender apenas afirmações testáveis ou falseáveis? Comparar seus resultados com o trabalho de colegas, repensar, refazer até acertar?

            Ah, se fosse só isso. Acredito que o buraco é conceitualmente mais embaixo.

            Um exemplo. Foi no primeiro ano do curso de Letras que ouvi falar da tal ciência da linguagem. A proposta estruturalista do suíço Ferdinand de Saussure é aceita (não por tooodo mundo, mas quase) como o pontapé inicial da Linguística, pois sua tentativa de dar uma cara científica aos estudos sobre linguagem no início do século 20 convenceu bastante gente de que uma nova área da ciência estava nascendo.

            Eu acho que o estruturalismo é mesmo um ponto de inflexão importante, mas a convenção sempre pode ser questionada. Eu muitas vezes me pergunto por que não considerar também como científicos os estudos de linguagem que eram feitos antes disso.

            O próprio Saussure, antes de dar cursos de linguística geral em Genebra, fez um brilhante estudo sobre a língua extinta hitita. Uma das hipóteses mais ousadas era sobre a existência de um som escondido nos meandros de seu sistema vocálico, e, alguns anos mais tarde, ela foi corroborada por descobertas em textos antigos. Esse estudo fazia parte da tradição histórico-comparativa típica do século 19, ou seja, de estudos sobre parentescos entre línguas. Sendo anterior ao estruturalismo proposto pelo homem himself, a descoberta do som hitita não é ciência da linguagem?

       O engraçado é que alguém poderia considerar um trabalho histórico-comparativo “menos científico”, argumentando que explicações sincrônicas seriam mais simples e testáveis do que as diacrônicas. Essa ideia se baseia numa dicotomia saussureana, mas eu não tenha certeza se ele mesmo a endossaria.

       Atribuir cientificidade ou qualquer outro termo designando escolas de pensamento a períodos históricos é uma armadilha. As correntes de pensamento concorrem entre si e andam em fluxos distintos ao longo da história. Às vezes, minguam e voltam à tona. É por isso que ainda temos gente que acredita em terra plana ao mesmo tempo em que existe gente que faz uma sonda espacial pousar num asteroide.

          Para quem acha que estou exagerando, eis outro bom exemplo controverso: outro dia, quase caí da cadeira ao ver um vídeo do filósofo americano Jerry Fodor fazendo uma afirmação meio assustadora sobre a teoria adaptacionista de Charles Darwin. Ele diz, sem meias palavras, que o adaptacionismo baseado em seleção natural “não é uma teoria”. Como é?

            Fodor tem o cuidado de garantir que sua visão a respeito de evolução nada tem de religiosa ou criacionista, o que, conhecendo a figura, é fácil de acreditar, mas na hora em que ouvi aquilo achei tão estapafúrdio que pensei: não é que o pastor Silas Malafaia, com suas declarações públicas de que a evolução por seleção natural seria “só uma teoria”, anda defendendo Darwin mais do que um filósofo naturalista? Pelo menos o pastor concede o status de teoria ao adaptacionismo.

            Mais tarde, tentando desesperadamente entender o que Fodor queria dizer, cheguei à conclusão que essas confusões a respeito do que é ou não é científico, se é teoria ou não, devem vir de um velho racha entre duas concepções de ciência, ou talvez, mais genericamente, de conhecimento.

            Há muito tempo, sob diversas roupagens intelectuais, temos dois tipos de explicação no mercado: uma mais naturalista e outra mais historicista. Esses termos talvez não sejam mutuamente excludentes, porque acredito que alguns estudiosos possam ser chamados de historicistas naturalistas. Mas vamos supor que essa dicotomia funcione.

            Idealmente, se você é adepto da explicação naturalista, acredita que métodos de ciências naturais, como os da mecânica newtoniana, por exemplo, são os únicos que trazem respostas consistentes. Que esses métodos funcionam no caso da física e química, é claro como água. Mas e se eles pudessem também ser aplicados a ciências sociais? Nesse caso, seria possível obter generalizações universais relevantes sobre a dinâmica de sociedades humanas, da política etc.

     Os historicistas típicos diriam que essa estratégia de aplicar métodos naturalistas às ciências sociais é mais furada do que um queijo emmental (trazendo de novo a Suíça ao debate), pois os indivíduos mudam de opinião e comportamento de acordo com circunstâncias históricas. E um problema maior ainda é que eles se deixam influenciar pelas próprias previsões. Os economistas o sabem bem: se há a previsão de que um banco possa quebrar, todos os seus clientes sacam seu dinheiro rapidamente, e ele quebra mesmo.

            Generalizações sobre sistemas de indivíduos dotados de mentes e intenções, portanto, só poderiam ser feitas baseadas em uma radical dependência de contextos, ou seja, é justamente a novidade, o imprevisível surgido no tempo e no espaço, que interessaria ao cientista social.

          Há muitos cientistas hoje que constroem modelos interessantíssimos de comportamentos sociais, baseados em bases gigantescas de dados e alto poder computacional. Embora hoje saibamos que alguns espertalhões conseguem até afetar comportamentos eleitorais com algoritmos e big data, acho muito difícil alguém acreditar que essas ferramentas possam prever consistentemente certos rumos que a política internacional toma, como se fosse a previsão de um eclipse, por exemplo. Quem diria que veríamos uma onda anticiência crescer nesse início de século?

            É esse tipo de incerteza associada aos modelos históricos que Jerry Fodor parece criticar sobre o adaptacionismo de Darwin, se eu entendi a ideia. A seleção natural é um fato inquestionável em sistemas biológicos, mas, segundo Fodor, se ela fosse a principal responsável pela fixação de traços fenotípicos nas espécies, por que então não podemos prever qual tipo de primata surgirá nos próximos milhares de anos, conhecendo sua ecologia? A resposta é que a seleção natural como mecanismo evolutivo nos dá um histórico dos traços, não uma maneira de prevê-los, e, portanto, não se qualificaria como teoria. Nada a ver com criacionismo, portanto. Fodor tem uma definição específica de teoria: ela serviria como explicação universal, independente de contexto.

            Enfim, podemos concluir que algumas pessoas querem fazer uma separação entre um tipo de conhecimento que busca respostas universais, de um lado, e um tipo que apresenta soluções dependentes do contexto espaçotemporal, de outro, e ainda preferem chamar só o primeiro de ciência. Ok, que seja. No fim das contas, enquanto esse conhecimento naturalista nos permite elevar o patamar de entendimento sobre a natureza, é o conhecimento histórico/contextual que nos faz entender melhor a realidade e nos livra de enrascadas do dia a dia. Como impedir, no século 21, que uma nação desenvolva e use uma bomba atômica contra outra? Sabendo das motivações políticas dos povos e seus governantes, ou através de uma equação de física nuclear?

            A política é a própria ciência (ou arte) das contingências, e é absolutamente essencial. É ridículo, portanto, ver alguns políticos modernos criticando investimentos em ciências humanas, sendo que é exatamente desse tipo de conhecimento que eles mais se valem em suas decisões.

            Quem está certo, então, ao defender uma ou outra visão de conhecimento?

       Aqueles que se digladiam sobre essas visões supostamente antagônicas parecem esquecer que elas são inevitáveis, e até desejáveis, devido à característica principal da capacidade humana de generalizar: ela é limitada. Então, quanto mais gente descrevendo elefantes teóricos, de todos os lados, melhor. Só a colaboração salva.

            Se fossem pacíficos os entendimentos sobre o que se deve fazer em uma área de estudos, não haveria necessidade de pesquisa insistente, departamentos, talvez nem de universidades. É justamente pelo fato de que a gente não sabe direito como as coisas complicadas funcionam que precisamos de pluralidade teórica. Já deveríamos estar acostumados a diferentes concepções de conhecimento.

          Mas para tentar não cair num relativismo fantasmagórico, daqueles que ouvimos do tipo “para linguista, vale tudo” ou “só sei que nada sei”, vou só dar minha opinião sobre o que caracterizaria a essência da ciência. É a dúvida, mas aquela dúvida nascida do reconhecimento de que somos muito falhos. Perguntar-se “será que não posso estar errado?”

         A gente tem uma tendência muito forte de confiar em autoridades e doutrinas. Não que elas sejam todos falsas, mas começar a desconfiar dos julgamentos estabelecidos é essencial para ver mais do que somente aquilo que está ao alcance dos olhos e ouvidos. É justamente isso o que eu queria dizer no começo sobre a própria noção de ciência. Eu não sei direito o que ela é, mas sei que ela pode me libertar das minhas próprias tendências a acreditar cegamente nas coisas. Então, independente do nome que se dê a essa atitude cautelosa, se ciência ou ceticismo humanista, sei lá, eu acho que vale a pena.

*Fabio Mesquita: sonhador isentão formado e reformado na UFPR

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