Povo herói cobrado retumbante

Deni*

O leitor que leu o título deste texto provavelmente reconheceu alguma semelhança com o primeiro trecho do Hino Nacional. O leitor que leu a letra do Hino Nacional também provavelmente reconheceu um pequeno “erro”: o que está na letra é povo heroico o brado retumbante. Digo leu porque essa diferença só é perceptível diante da letra escrita. Faça o teste: ouça o hino e note que é difícil distinguir o heroico brado do herói cobrado.

            Por que isso acontece? Bem, antes de tudo, a primeira questão linguística que precisamos reconhecer para compreender esse problema é que há significativas diferenças entre língua falada e língua escrita. Na escrita, por convenção e para facilitar o processo da leitura, fazemos pausas (espaços em branco) entre o que podemos chamar de palavras. A fala não segue as pausas da escrita, ou seja, os limites das palavras não são os mesmos na fala e na escrita; exemplo disso é o fato de naturalmente juntarmos algumas “palavras” (separadas por convenção escrita) como artigos e nomes, como em “ozome” (os homens), outro exemplo é a entonação (muito simplificadamente o que seria a prosódia) que diferencia a sentença com o vocativo João, vem aqui da sentença afirmativa João vem aqui – o que na escrita é feito de certa forma por uma vírgula, como podemos ver. Na música, além disso, a diferença maior é que o canto segue uma melodia, o que dá mais trabalho para identificarmos o que estamos ouvindo.

            No caso do verso do Hino Nacional, título deste texto, a melodia pode nos levar a identificar uma pausa em um lugar diferente do previsto na letra escrita, alterando o significado pretendido. Perceba que o lugar pausa é a única diferença entre heroico brado e herói cobrado. Isso explica em parte porque cantamos errado. Algumas músicas brincam com as pausas para dar um efeito humorístico. É o caso dos Originais do Samba no pela Dona do primeiro andar. Esse recurso também é comum em paródias, como o japonês tem quatro filhos, do Hino da Independência, já podeis, da Pátria filhos. Ouvindo, não identificamos uma pausa entre e podeis, logo juntamos jápodeis; além disso, aqui ocorre outros fenômenos que aproximam, na fala, já podeis de japonês: 1. a substituição de “d” por “n” cuja diferença articulatória é pequena (experimentem falar para comprovar); 2. a identificação de algo parecido com um “i” depois do “e” de japonês, fenômeno provocado também pelo som do “s” que vem depois.

            Além dos limites das palavras e da entonação, então, a inserção, substituição ou apagamento de alguns sons da fala também explicam o fato de cantarmos errado algumas vezes. E muitas vezes descobrimos o erro tempos depois. Mas esse fenômeno não envolve apenas os sons da fala; trata-se, pois, de uma questão de significação também. Temos uma tendência a atribuir sentido a tudo que ouvimos – seja por uma característica natural humana, seja por uma característica do processo de comunicação. Por isso, temos uma expectativa do que queremos ouvir, do que queremos compreender. Daí o conflito entre o que está composto pela música, pelo falante, e o que é esperado pelo ouvinte. Prova disso, para além das letras de música, é o quanto repetimos a reposta a Crédito ou débito?, quando vamos pagar alguma conta.

            Muitas vezes, o contexto dá pistas para distinguirmos uma forma e não outra e atribuirmos um significado e não outro. Na música do Djavan, amar é um deserto e seus temores facilmente vira amarelo é o deserto e seus temores: juntamos amar+é, inserimos a lateral “l” e logo após o som do “o”, que no final da palavra se torna muito parecido com o de “u” (foneticamente poderíamos representar ambos com o mesmo símbolo, mas aqui, para facilitar a compreensão e a referência, mantenho a convenção da escrita); e, com relação à interpretação, é bem mais fácil compreender que o deserto é amarelo, já que de fato a areia do deserto o deixa com a coloração amarelada, do que o significado de amar é um deserto. Algo parecido ocorre com o homem pra chamar de seu, de Roberto e Erasmo, que facilmente vira o homem pra chamar Dirceu, já que entendemos chamar como dar nome. Outro exemplo é quando uma música está ou tem algum trecho em outra língua, o que também facilita o “erro” do ouvinte. É o caso do eu perguntava tu e o holandês?, compreensão possível do eu perguntava do you wanna dance?, trecho de Whisk a Go Go, do Roupa Nova.

            Voltando para o nosso Hino Nacional, considerando o significado, o que nos faz compreender uma forma e não outra? Quais elementos contextuais influenciam nossa interpretação? Bom, sabemos que a letra toda é de difícil compreensão, já que há termos que ninguém mais usa e há inversões sintáticas um tanto inusitadas, dificultando o processamento. O trecho que destacamos é o inicial: Ouviram do Ipiranga às margens plácidas, de um povo heroico o brado retumbante. Aqui, além de brado ser uma palavra pouco utilizada hoje (preferimos grito ou berro), temos que chegar à interpretação de que o povo heroico deu um grito retumbante (muito forte), nas margens muito calmas do rio Ipiranga. Fora isso, ninguém sabe quem que ouviu… Difícil, né! E é só início. O podeis do Hino da Independência, outro exemplo, é uma conjugação do verbo poder que também ninguém mais usa. Aliás, ainda se canta o Hino da Independência?

            Enfim, os termos herói e cobrado aparecem com mais frequência no nosso cotidiano e são facilmente interpretáveis. Ora, o que vemos mais no nosso presente: um povo que grita nas margens do rio Ipiranga ou um povo exposto a riscos de que tenta sobreviver (herói) e está envolvo em necessidades de trabalho e contas a pagar (cobrado)? Bem, se olharmos para o contexto atual – perda de direitos trabalhistas, aumento do trabalho informal, redução de emprego com carteira assinada, cortes na saúde e educação pública, aumento no preço de itens básicos (como luz e água), interrupção da distribuição gratuita de remédios de uso contínuo, aumento dos anos de contribuição previdenciária e redução do benefício incoerente com situação atual dos trabalhadores de baixa renda, liberação deliberada de agrotóxicos altamente tóxicos … – já podemos ter uma ideia de qual é a forma, que ouvimos do verso do hino, a que preferencialmente (ou inevitavelmente) atribuímos mais sentido.

Mais explicações sobre o fenômeno mencionado: https://www.youtube.com/watch?v=dBnhkwRmYuQ

*Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudo Linguísticos na UFPR.

Um comentário em “Povo herói cobrado retumbante

  1. E assim somos e continuamos um povo heróico que trabalha pacífica e pacientemente, cobrado por o que é nosso de direito 💪🏼 Esperançoso 🙌🏽e como eu cantando o que ouço 😅… Excelente texto!🥰

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