Criança sabe argumentar!

Deni*

A Linguística Textual é uma área da Linguística que tem como objeto de estudo o texto, como o nome já sugere. Uma vez que uma de suas preocupações é o desenvolvimento da linguagem escrita, essa área está ligada não só à análise, mas também ao ensino de produção de texto. Nesse meio está incluída a argumentação. Argumentação é considerada uma sequência textual (ou tipo textual, conforme a teoria) que se caracteriza pela construção de uma tese sobre determinado fato e a apresentação de argumentos que a justifiquem, e que caracteriza vários gêneros textuais, como artigo de opinião, artigo científico, editorial, carta, entre outros. Por serem muito comuns e imprescindíveis em várias situações, a interpretação e a produção de textos argumentativos fazem parte do currículo escolar.

         Entretanto, não é na escola que a criança aprende a argumentar. Lá ela aprende a dominar o padrão oral e escrito da língua e os diferentes gêneros textuais que veiculam a argumentação. Se considerarmos as características básicas – tese e argumentos –, podemos compreender que emitir um juízo sobre alguma coisa e justificá-lo é comum também a crianças pequenas, que ainda não foram alfabetizadas, e a pessoas não escolarizadas. Quando uma criança, por exemplo, recusa determinada comida dizendo “tá quenti”, temos aí uma tese (não quero comer) e um argumento (porque está quente).

            Como herança da retórica, ficamos com duas questões importantes (existem mais, mas destaco duas, para facilitar) para análise e construção da argumentação:

1. existe um autor, que se constrói socialmente (ele é alguém que ocupa um espaço, um papel social) e discursivamente (ou seja, simplificadamente, o texto apresenta características que definem o autor), o qual busca convencer um interlocutor (ou mais), por exemplo: um professor que procura convencer seus alunos; um aluno que procura convencer o professor; os pais e os filhos; os filhos e os pais; o advogado e o juiz; o vendedor e o cliente; o candidato e os eleitores; e por aí vai…

2. existe uma classificação dos argumentos que compreende, entre outros: a comparação (pode-se comparar dados de desemprego de dois governos para justificar qual política econômica foi melhor, por exemplo); a probabilidade (vou levar um guarda-chuva porque a previsão do tempo indicou alta probabilidade de chuva); exemplos/ilustrações (o desastre de Brumadinho é um exemplo do descaso das empresas mineradoras); a dissociação (o famoso: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa); a relação de causa e consequência (o índice de desmatamento aumentou, por causa da política do governo atual de descaso com o meio ambiente).

            Faço aqui uma explicação bem simplificada da argumentação, ou de como ela é considerada quando se trabalha com produção de texto. A intenção é partimos desses pontos para analisarmos textos de crianças que vieram a público nos últimos dias. Diante das operações violentas e arbitrárias do governo do Rio de Janeiro no Complexo de Favelas da Maré, a ONG Redes da Maré reuniu 1509 cartas de moradores enviadas ao Tribunal de Justiça do Estado. Dessas cartas, seleciono 3, escritas por crianças. Para análise delas, vamos partir de um dos principais pressupostos da avaliação de texto: todo texto é interpretável. Ou seja, independente de problemas de domínio do registro escrito e da estruturação textual, todo texto tem coerência, tem alguém que quer dizer algo a outro alguém.

            Vejamos os textos e o destaque da tese e dos argumentos logo abaixo:

tese: não gosto do helicóptero [utilizado nas operações]
argumento: porque ele atira para baixo e as pessoas morrem (causa e consequência)

tese: “eu queria que parase a operação”
argumentos: muitas famílias foram mortas, estou sem quarto porque vocês destruíram na operação, todo mundo da minha escola chora, meu irmão morreu por causa dos policiais, bateram em meu primo (são exemplos pessoais e argumentos de causa e consequência)

tese: “as operações mata muita gente e é muito triste”
argumento: o medo dos tiros que o fez se esconder atrás da máquina de lavar (exemplo pessoal)

Paro a análise por aqui, no limite em que a frieza de uma cientista da linguagem (que já é questionável) dá lugar à sensibilidade, à comoção. Essas cartas mostram que a argumentação é utilizada, construída, pelas crianças desde cedo. Mas não só. Os autores formulam sua retórica marcando a posição social que ocupam – crianças vítimas de operações violentas por parte do governo do Rio de Janeiro – e buscando persuadir o interlocutor a parar as operações por meio da exposição de experiências e sentimentos pessoais. São essas 3 cartas e as mais de 1500. Mais de 1500 argumentações. Mais de 1500 cidadãos com a esperança de convencer o interlocutor a não matar seus familiares, seus amigos, seus colegas e a si mesmos.

            Para aqueles que acreditam que a escola doutrina, principalmente quando permite uma crítica a uma política governamental, a análise linguística da argumentação pode dizer que a escola é apenas um meio (absolutamente importante) dos argumentos ganharem forma padrão e apenas um caminho para que eles cheguem a seus interlocutores, ou seja, para que seus autores sejam ouvidos/lidos. As crianças das cartas analisadas, com poucos anos de escolarização, já mostram a capacidade de argumentar, provando que essa capacidade de observar a realidade, emitir uma opinião e justificá-la vai muito além e é anterior à escola. Logo, não se pode dizer que são crianças “doutrinadas” (se é que dizer isso faz algum sentido). Essas crianças autoras mostraram o domínio da elaboração de argumentos absolutamente persuasivos. Ao contrário dos argumentos da doutrinação de fato, que são aqueles de fácil repetição: tudo bandido, direitos humanos para humanos direitos, armas diminuem a violência, é ideológico… (mais isso fica para um outro texto).

          A argumentação emerge, portanto, da experiência, da emoção, do sentimento. E quando vem do sofrimento e do medo, pergunto: o que mais ela precisa para convencer?

Os textos das crianças foram retirados da reportagem do jornal El País sobre as cartas: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/14/politica/1565803890_702531.html

A ONG Redes da Maré publicou uma nota: http://www.redesdamare.org.br/br/artigo/62/nota-publica-ao-governador-e-ao-presidente-do-tribunal-de-justica-do-estado-do-rio-de-janeiro-168

Referência sobre princípio da interpretabilidade: CHAROLLES, M. Introdução aos problemas da coerência dos textos. In: GALVEZ, C. (Org.) O texto: leitura e escrita. Campinas: Pontes, 2002.

Referência sobre a avaliação de produção de texto na escola, incluindo a argumentação: WACHOWICZ, T.C. Avaliação de textos na escola. Curitiba: InterSaberes, 2015.

*Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudos Linguísticos na UFPR.

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