Futuro

Deni*

Um dos objetos de estudo da Linguística é o tempo, manifestado, no caso do português, pela morfologia verbal e por advérbios. Sob determinado ponto de vista, o tempo é analisado levando-se em conta a localização do evento expresso na sentença em relação a um eixo de orientação que, na maioria das vezes, é o momento em que a sentença é proferida, ou seja, o momento em que o falante fala. Temos, então:

a) Tempo passado: Maria estudou História = O evento Maria estudar História aconteceu antes do proferimento dessa sentença;

b) Tempo presente: João está estudando Direito = O evento João estudar direito está acontecendo no momento que essa sentença é proferida;

c) Tempo futuro: Pedro vai estudar Letras = O evento Pedro estudar letras vai acontecer depois do proferimento dessa sentença.

            Faço aqui uma explicação absurdamente simplificada, dado que as relações temporais que a nossa língua nos permite fazer são mais complexas e, em vários casos, envolvem uma combinação de elementos. Em narrativas, por exemplo, o eixo de orientação pode ser descolado para um tempo passado, sendo possível utilizarmos marcas de futuro no passado, como em Em 1964, o Brasil vai sofrer um golpe militar, e de presente Em 1964, o Brasil sofre um golpe militar.

           Embora muito interessantes, não pretendo aqui entrar nessas complexidades; quero focar no futuro, que também não deixa de ser complexo. Na perspectiva acima mencionada, o futuro é, então, um acontecimento projetado em um momento posterior ao agora. Entretanto, há quem considere o futuro não como um tempo, mas como um modo, o modo irrealis. Isso quer dizer: uma vez que se fala de algo que não foi observado, percebido, como o passado, nem de algo palpável no presente, o futuro é o não real.

            Particularmente, a primeira explicação sempre me convenceu mais; contudo, uma questão contextual está me fazendo considerar a divisão real X não real para a compreensão do futuro. Recentemente, o Ministério da Educação lançou o Future-se – projeto para administração e captação de recursos para as Universidades e Institutos Federais. Para nós, linguistas, o nome em si já chama atenção. Diante disso, me veio a questão: qual a concepção de futuro do Future-se?

         A fim de construir a resposta, vamos analisar o contexto, extrapolando o limite de uma análise formal de uma sentença apenas. Nisso, atentamos para alguns pontos dessa proposta, ressaltando que não será feita uma análise integral do programa, mas sim dos elementos que nos ajudam a compreender sua concepção de futuro.

             O primeiro é como o Future-se chega para as Universidades:

a) sem diálogo com as pessoas que fazem parte das instituições: reitores, pró-reitores, diretores, professores, economistas, administradores, sociólogos, historiadores, acadêmicos do Direito, técnicos administrativos, engenheiros, estudantes, pós-graduandos, etc.; ou seja, faz-se uma proposta de financiamento sem estudar a viabilidade das alternativas junto com aqueles que dele dependem e que conhecem bem o funcionamento da captação de recursos (que já existe!), para além do financiamento público.

b) no momento em que as instituições estão com o orçamento bloqueado pelo próprio MEC. Se essa verba – que é verba de custeio básico como luz, segurança, limpeza, etc. – não voltar, elas não têm como se manter nos próximos meses. Logo, as Universidades e Institutos têm que decidir sobre um projeto de financiamento a longo prazo, sem conseguir funcionar agora.

c) no momento em que o governo federal nega a ciência. Exemplo disso são os descasos recentes com os dados do INPE, do IBGE, da Fiocruz, entre outras instituições.

            O segundo ponto é que o projeto passa por cima de questões constitucionais e de características fundamentais que constituem as Universidades Públicas:

a) a administração por via das Organizações Sociais (como está no projeto) se choca com a autonomia universitária (garantida pela Constituição) e com a carreira docente;

b) não se define como será assegurada a extensão, ou seja, um dos três pilares da Universidade – ensino, pesquisa e extensão – que é a relação direta entre a academia e a comunidade externa é deixado de lado;

c) não leva em conta as metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação – uma da quais é a expansão;

d) uma vez que o foco do projeto é o mercado e o empreendedorismo, não garante como as áreas que não estão diretamente ligadas a isso, mas que são fundamentais para o desenvolvimento social e científico – como as Ciências Humanas e as Ciências Básicas – conseguirão os recursos necessários para sua manutenção.

e) a proposta de parceria com empresas e do fundo imobiliário (que não está claro como funcionará e nem o prazo com que os recursos iriam para as instituições) não são garantia de todo o orçamento para que as instituições tenham um funcionamento pleno.

            Existem mais questões a serem discutidas e analisadas com relação ao Future-se. Deixo, portanto, ao final deste texto, links com mais informações e comentários. Por ora, o que pretendo é depreender desses pontos elencados uma ideia de futuro: ao passar por cima dos sujeitos que atuam nas Universidades e Institutos Federais e de suas características fundamentais, estruturantes, e ao desconsiderar o que se faz e o funcionamento básico dessas instituições, o projeto mostra que não tem relação com o agora, não está posto em relação ao momento atual. Ou seja, este Future-se é irrealis.

Ver:
Carta da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior: https://www.furg.br/noticias/noticias-institucional/associacao-de-reitores-das-universidades-federais-divulga-carta-sobre-programa-future-se?fbclid=IwAR0ROtGpBaYmRGHBhly7DKzfkIaXYVRCCReZgNVP4jYzRp9iT8mSJSlaaYQ
Comentários do reitor da UFPR: https://www.plural.jor.br/noticias/governo-poe-universidades-em-perigo-diz-reitor-da-ufpr/?fbclid=IwAR3ICif8QiziHXbRYWSXzz1T1bHJ70N5e4s9rD7zOABWQe–hCFAppo5q3E
Entrevista com o reitor da UFC: https://www.brasildefato.com.br/2019/08/05/projeto-future-se-e-o-fim-da-democratizacao-das-universidades-avalia-reitor-da-ufc/?fbclid=IwAR1k_CPY8hGCOhxw1P9IHUjS6aMuTQY_ifbMHOpB3a7RDcorIT-8yDT4Sqs
O próprio: http://estaticog1.globo.com/2019/07/19/programa_futurese_consultapublica.pdf

*Denise Miotto Mazocco é doutoranda em Estudos Linguísticos na UFPR.

2 comentários em “Futuro

  1. Leticia Schiavon Kolberg 12 de agosto de 2019 — 06:47

    Muito bom o texto! Uma reflexão: e como chamamos quando se mente sobre o passado, e o presente parece que saiu de um episódio de Black Mirror (versão atualizada de Twilight Zone)? Me parece meio irrealis também rs

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